O relógio de Teerão
Há uma cena recorrente nos filmes de guerra que raramente corresponde à realidade. Depois da batalha decisiva, depois da explosão final, depois da bandeira hasteada e do discurso da vitória, surge inevitavelmente a paz. A política entra em cena para recolher os despojos do campo de batalha e transformar uma vitória militar numa nova ordem política. A História, infelizmente para os estrategas e para os argumentistas de Hollywood, raramente funciona assim.
A crise entre Israel, os Estados Unidos e o Irão está a demonstrá-lo de forma quase pedagógica. Depois dos bombardeamentos, das operações clandestinas, das ameaças de escalada e das demonstrações de força militar, continua a faltar aquilo que verdadeiramente define o vencedor de um conflito: a capacidade de impor as condições da paz. É precisamente por isso que Donald Trump continua a prolongar quase indefinidamente o actual cessar-fogo. Não porque tenha encontrado uma solução. Não porque exista um acordo iminente. Mas porque Washington descobriu aquilo que todas as grandes potências acabam por descobrir mais cedo ou mais tarde: ganhar batalhas é frequentemente mais fácil do que controlar o que acontece depois delas.
A questão central é simples. Militarmente, Israel e os Estados Unidos conseguiram demonstrar superioridade. Politicamente, continuam longe de alcançar os objectivos estratégicos que justificaram a confrontação. O regime iraniano não caiu. Não surgiu qualquer golpe de Estado. Não apareceu uma revolta popular capaz de ameaçar seriamente os alicerces do poder em Teerão. E uma invasão terrestre, à imagem do que aconteceu no Iraque em 2003 ou no Afeganistão em 2001, está praticamente excluída do horizonte político americano. Depois de duas décadas de guerras intermináveis, milhares de mortos e biliões de dólares gastos sem resultados políticos proporcionais, nenhuma administração americana tem apetite para abrir uma nova frente militar de ocupação no Médio Oriente.
Sem a possibilidade credível de uma mudança de regime, a negociação torna-se inevitável. E quando a negociação se torna inevitável, o tempo transforma-se num recurso estratégico. Neste momento, esse recurso pertence ao Irão.
Durante meses, muitos analistas assumiram que a pressão militar colocaria Teerão numa posição defensiva e obrigaria o regime a aceitar rapidamente condições impostas por Washington e Jerusalém. O que aconteceu foi exactamente o contrário. O regime sobreviveu, preservou a sua capacidade de decisão política e continua a deter instrumentos suficientes para influenciar os custos económicos e estratégicos do conflito. O mais importante desses instrumentos continua a ser o Estreito de Ormuz.
Mesmo sem um bloqueio total da navegação, mesmo sem encerrar completamente a passagem marítima, a simples capacidade iraniana de introduzir incerteza naquela rota constitui uma poderosa arma geopolítica. Uma parte substancial do petróleo mundial continua a atravessar aquele corredor marítimo. Basta a percepção de risco para afectar mercados energéticos, prémios de seguro, custos de transporte e expectativas económicas globais. O Irão não precisa de vencer uma guerra naval contra os Estados Unidos. Basta-lhe recordar diariamente aos mercados que possui capacidade para aumentar o preço da estabilidade regional.
É precisamente aqui que reside a dificuldade de Donald Trump. O Presidente americano procura controlar a narrativa porque tem cada vez menos capacidade para controlar o calendário. Num dia aumenta a pressão sobre Teerão. No seguinte suaviza o discurso. Ora fala de avanços significativos nas negociações, ora reduz as expectativas e apresenta os contactos como exploratórios. ffi primeira vista, esta oscilação pode parecer incoerência. Na realidade, é o reflexo de uma limitação estratégica. Washington já não procura um grande acordo histórico. Procura algo mais modesto: um memorando de entendimento, um conjunto de princípios, uma arquitectura mínima que permita sustentar negociações futuras e apresentar algum tipo de progresso político.
O problema é que mesmo esse objectivo modesto está longe de ser garantido. Qualquer entendimento minimamente credível terá de abordar a questão nuclear iraniana. Os cerca de 440 quilos de urânio enriquecido que continuam a preocupar os serviços de inteligência ocidentais representam um obstáculo central. Para Israel, um acordo que não elimine de forma clara e verificável a capacidade iraniana de retomar rapidamente o enriquecimento será visto como insuficiente. Para Teerão, uma rendição completa nesta matéria equivaleria a aceitar uma derrota estratégica e simbólica que o regime dificilmente sobreviveria internamente.
A isto junta-se o programa de mísseis balísticos, que continua a ser encarado por Israel como uma ameaça existencial, e a questão ainda mais complexa da arquitectura regional construída pelo Irão ao longo de décadas através da sua rede de aliados e parceiros. É neste ponto que o Líbano regressa inevitavelmente ao centro da equação.
Enquanto decorrem contactos indirectos sobre um eventual entendimento entre Washington e Teerão, Israel continua a pressionar o Hezbollah e mantém operações destinadas a limitar a capacidade operacional daquele movimento. Do ponto de vista iraniano, esta realidade é inaceitável. Teerão pretende que qualquer cessar-fogo ou memorando de entendimento inclua igualmente garantias relativas ao teatro libanês. O regime iraniano considera que a estabilização regional deve ser discutida como um pacote integrado, envolvendo simultaneamente a questão nuclear, os mecanismos de segurança regional e os vários teatros onde a influência iraniana se manifesta.
Israel recusa essa lógica. Para Jerusalém, o Hezbollah continua a representar uma ameaça directa à sua segurança nacional e qualquer limitação significativa à liberdade de acção militar será entendida como uma concessão excessiva. Esta divergência ajuda a explicar a lentidão das negociações. O Irão quer discutir todo o tabuleiro. Israel pretende concentrar a discussão na questão nuclear e nos mísseis balísticos. Os Estados Unidos procuram equilibrar ambas as posições sem romper com nenhuma delas.
O resultado é uma espécie de suspensão estratégica permanente. Nenhuma das partes está preparada para regressar imediatamente à guerra. Nenhuma das partes está preparada para fazer as concessões necessárias à paz. O cessar-fogo transforma-se assim numa sala de espera geopolítica onde todos permanecem sentados, mas ninguém sabe exactamente quando será chamado.
Há aqui uma ironia histórica difícil de ignorar. Muitos dos críticos do Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA), ou Plano de Acção Conjunto Global, negociado durante a presidência de Barack Obama, argumentavam que aquele entendimento era excessivamente permissivo e incapaz de resolver de forma definitiva o problema nuclear iraniano. Contudo, aquilo que hoje é frequentemente esquecido é que esse acordo exigiu cerca de dezoito meses de negociações intensivas, múltiplas rondas diplomáticas e um contexto regional significativamente menos volátil do que o actual.
Hoje, depois de anos de deterioração das relações entre o Ocidente e o Irão, depois de sucessivas crises regionais e depois de um conflito militar directo entre as partes, Washington procura um entendimento potencialmente mais ambicioso em condições incomparavelmente mais difíceis. A comparação deveria introduzir alguma humildade nas expectativas que se criam em torno das negociações actuais.
A verdadeira ironia desta crise é que os Estados Unidos e Israel chegaram ao ponto em que a superioridade militar já não produz automaticamente vantagens políticas. Durante décadas, o poder americano assentou precisamente nessa capacidade de transformar vitórias operacionais em novas realidades diplomáticas. Foi assim após a Guerra do Golfo. Foi assim nos Balcãs. Hoje, porém, a equação é diferente. O Irão continua de pé, o regime continua funcional, os seus aliados regionais permanecem activos e o Estreito de Ormuz continua a recordar diariamente que a geografia também produz poder.
Donald Trump pode prolongar o cessar-fogo durante semanas ou meses. Pode alternar entre ameaças e ofertas de negociação. Pode anunciar progressos ou endurecer posições. Mas nenhum desses movimentos altera um facto fundamental: Washington já não dispõe de instrumentos políticos simples para converter pressão militar em capitulação estratégica iraniana.
No final, as guerras raramente terminam quando os generais o desejam. Terminam quando os políticos encontram uma fórmula aceitável para todos os actores relevantes. E essa fórmula continua distante. Por isso, o cessar-fogo prolonga-se. Por isso, as negociações avançam aos soluços. E por isso, apesar de toda a retórica produzida em Washington, Jerusalém e Teerão, o factor decisivo desta crise já não é a força militar disponível, mas sim quem consegue suportar durante mais tempo o peso da espera.
Porque, neste momento, a questão já não é quem venceu a última batalha. A questão é quem controla o tempo. E, para desconforto de Donald Trump e de Benjamin Netanyahu, o relógio continua a marcar a hora de Teerão.
Share this content:



Publicar comentário