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Jornalista e prémio Pulitzer Thomas Friedman diz que o mundo “já não é plano e também não é binário. Agora é policénico”

Jornalista e prémio Pulitzer Thomas Friedman diz que o mundo “já não é plano e também não é binário. Agora é policénico”

“Bem-vindos à era da polimorfia, à era da policena.” Este é o neologismo que o norte-americano Thomas Friedman encontrou para descrever a atualidade, hiperconectada com grande interferência humana na tecnologia, no ambiente e na geopolítica.
Thomas Friedman, colunista do “The New York Times”, três vezes galardoado com o Prémio Pulitzer e autor do livro “O Mundo é Plano” (Actual Editora, 2006), explicou que a nova terminologia  surgiu em 2024 quando conversava com um especialista em Inteligência Artificial (IA) que lhe indicou que a IA seria polimórfica: capaz de operar em diversas disciplinas, da física à literatura. “Semanas depois, o meu tutor de assuntos climáticos publicou um livro sobre as policrises, com a ideia de que as ameaças climáticas são múltiplas e simultâneas. A síntese das duas conversas deu o nome a esta era que hoje vivemos: a Policena”, explicou o jornalista norte-americano na décima quarta edição do Fórum Lisboa, promovido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Gilmar Mendes, e que decorre até quarta-feira, 3 de junho.
Friedman, exemplificou a novo neologismo com o seu iPhone. “Este é um aparelho que nos permite fazer coisas simples como eu ligar daqui de Lisboa para os Estados Unidos em segundos, mas ao mesmo tempo é muito complexo e não pode ser apenas criado por um único país, mas sim por vários, e conectados. E por isso hoje o mundo é poli”, reforçou.
“Estamos a viver aquilo a que chamo o segundo Big Bang”, afirmou. Para Friedman, a humanidade tornou-se semelhante a Deus através de vários domínios: “Criou inteligência artificial que supera a capacidade do cérebro humano; consegue comunicar instantaneamente para qualquer ponto do globo; alterou o clima; criou o ciberespaço como uma nova galáxia; dividiu o átomo, que pode destruir o mundo; inventou a aprendizagem profunda e aproxima-se do momento em que terá computação quântica, fusão energética e IA em simultâneo”.
Mas Friedman apontou um problema central, recorrendo a uma alusão bíblica: “Temos poder para dividir o Mar Vermelho, mas não temos os Dez Mandamentos. Não temos regras, e isso será um grande desafio. Teremos de ter dez mandamentos para nós, e mais dez para a inteligência artificial”.
Sobre geopolítica, o jornalista acredita que a China segue uma estratégia de tornar o planeta dependente da sua economia sem que ela própria dependa de ninguém. “Se isso acontecer, não será sustentável. O mundo irá virar-se contra a China”, alertou.
Sublinhou ainda a importância das relações comerciais e diplomáticas entre as duas potências: “A única maneira de lidarmos com a inteligência artificial a nível global é se os Estados Unidos e a China construírem legislação e ética em conjunto. Se não o fizerem, haverá um problema sério com os dados e com quem os detém.”
No final da conversa, questionado sobre se esta nova era poderá colocar em causa os valores democráticos, Friedman foi direto: “É uma questão muito séria e estou muito preocupado. A IA pode ajudar-nos ou destruir-nos. Porque a IA não é uma tecnologia — é uma espécie diferente. Ou aprendemos a colaborar com ela, ou seremos o seu animal de estimação. A democracia assenta na verdade e na confiança; sem elas não conseguimos resolver problemas”. E deixou um conselho: “Não uso redes sociais e aconselho-vos a fazer o mesmo. Tirem os vossos filhos das redes sociais. São o inimigo da democracia”.
O Fórum Lisboa decorre até amanhã, 3 de junho, na Cidade Universitária de Lisboa.

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