Sónia Luz: “Na Finsolutia queremos garantir que a adoção de IA é feita desde o início com controlo e supervisão humana”
Nasceu como empresa que presta serviços de gestão de carteiras de créditos e de imobiliário (servicer), e assume-se hoje como “empresa tecnológica especializada em soluções para crédito habitação e ativos imobiliários”. A Finsolutia acaba de apresentar o seu Relatório ESG 2026. Esse foi o pretexto para entrevistar Sónia Luz, ESG & Sustainability Lead da Finsolutia.
A Finsolutia está no mercado financeiro desde 2007 onde desenvolve soluções tecnológicas para a gestão de créditos e ativos imobiliários. A empresa, com escritórios em Lisboa e Madrid, assume-se como parceira de bancos, corretoras e instituições financeiras com a missão de contribuir para a definição e criação de processos que visam a transformação digital no segmento do crédito habitação.
Num contexto em que a sustentabilidade deixou de ser apenas uma questão de conformidade para assumir um papel estratégico na gestão das empresas, particularmente nos setores financeiro e tecnológico, o relatório reflete a integração crescente dos princípios ESG na estratégia e na atividade da empresa. A empresa alcançou a neutralidade carbónica nos Scopes 1 e 2, reforçou as suas práticas de governance, investiu em talento e formação e está a preparar-se para a certificação ISO 42001, dedicada à gestão responsável da Inteligência Artificial.
“No nosso caso, apesar de não termos obrigação legal de reporte devido à dimensão e características da empresa, adotamos voluntariamente estes referenciais no âmbito da nossa relação com o acionista maioritário, a Pollen Street Capital, e da nossa adesão ao United Nations Global Compact”
Durante muitos anos, o ESG foi visto sobretudo como uma resposta às exigências regulatórias. Hoje está a assumir um papel mais estratégico?
Durante muitos anos, o ESG foi impulsionado sobretudo por exigências regulatórias e de reporte. No nosso caso, apesar de não termos obrigação legal de reporte devido à dimensão e características da empresa, adotamos voluntariamente estes referenciais no âmbito da nossa relação com o acionista maioritário, a Pollen Street Capital, e da nossa adesão ao United Nations Global Compact.
Hoje, o ESG assume claramente um papel mais estratégico. Mais do que uma resposta a requisitos externos, é uma ferramenta de gestão que nos permite estruturar melhor a tomada de decisão, reforçar a transparência e alinhar a nossa atuação com princípios internacionais de sustentabilidade. Nesse sentido, integra-se cada vez mais na forma como pensamos o crescimento e a criação de valor a longo prazo.
O setor financeiro vive sob forte escrutínio regulatório. O ESG não é uma carga adicional? Acredita que o ESG está a tornar-se um fator diferenciador na construção de confiança?
É natural que exista um esforço adicional de reporte, medição e monitorização. No entanto, encarar o ESG apenas como uma carga administrativa é uma visão limitada. No setor financeiro, a confiança é um ativo fundamental. Clientes, investidores e reguladores querem cada vez mais transparência, responsabilidade e capacidade de gestão de riscos. Nesse contexto, uma estratégia ESG credível torna-se um elemento diferenciador, porque demonstra compromisso com uma gestão sustentável e de longo prazo.
“Durante algum tempo, o ESG correu o risco de ser tratado mais como um exercício de comunicação do que de gestão”
Num importante especial de julho de 2022 intitulado “Three letters that won’t save the planet” a revista The Economist argumentou que a estrutura se tornou incoerente, excessivamente complicada e “um amontoado de disparates superficiais e exagerados”, agrupando objetivos conflituantes. Concorda? Alguma coisa mudou com o ESG desde então?
A crítica teve mérito ao alertar para alguns excessos e para a falta de consistência que existia em determinadas abordagens. Durante algum tempo, o ESG correu o risco de ser tratado mais como um exercício de comunicação do que de gestão. O que mudou desde então foi uma maior maturidade do mercado. Hoje existe uma preocupação crescente com métricas mais robustas, maior comparabilidade, transparência e materialidade. O ESG continua a evoluir, mas está progressivamente a tornar-se mais rigoroso e mais ligado à estratégia e ao desempenho real das organizações.
Que impacto concreto tem a estratégia ESG na atividade da Finsolutia? Existem exemplos em que a sustentabilidade tenha influenciado opções de investimento, processos ou prioridades da empresa?
O impacto é muito concreto. A estratégia ESG influencia a forma como gerimos operações, selecionamos fornecedores, investimos em tecnologia, desenvolvemos competências internas e avaliamos riscos. A neutralidade carbónica nos Scopes 1 e 2, o reforço contínuo das práticas de governance, o investimento em formação e o desenvolvimento de uma abordagem estruturada à Inteligência Artificial responsável são exemplos claros de decisões que resultam diretamente da integração dos princípios ESG na gestão da empresa.
A Finsolutia atingiu a neutralidade carbónica nos Scopes 1 e 2 [Scope 1 engloba todas as emissões libertadas na atmosfera que vêm diretamente de fontes controladas ou que pertencem à própria empresa e Scope 2 inclui as emissões indiretas geradas na produção da energia que a empresa compra e consome. Embora o gás seja libertado fisicamente na central elétrica de um terceiro, a pegada é atribuída à empresa que utilizou essa energia]. O que significou esse processo e quais foram as principais medidas implementadas para o alcançar?
Foi um processo que exigiu, antes de mais, conhecer com rigor a nossa pegada de carbono. A partir dessa base, implementámos medidas de eficiência operacional, otimização do consumo energético, gestão mais eficiente dos recursos e adoção de soluções com menor impacto ambiental. A neutralidade carbónica nos Scopes 1 e 2 representa um marco importante, mas encaramo-la como uma etapa de um percurso contínuo de melhoria.
O relatório mostra uma evolução da sustentabilidade como eixo estratégico de gestão, combinando neutralidade carbónica nos Scopes 1 e 2, reforço da governance, investimento em talento e uma abordagem cada vez mais estruturada à Inteligência Artificial responsável. Gostava de perceber como esta evolução se traduz na operação diária e qual o papel do ESG no negócio da Finsolutia?
Esta evolução traduz-se numa integração cada vez mais prática do ESG na forma como operamos diariamente.
Na vertente ambiental, a neutralidade carbónica nos Scopes 1 e 2 resulta de decisões concretas ao nível da gestão energética, mobilidade e eficiência operacional, bem como de uma maior disciplina na monitorização e análise das emissões.
Ao nível da governance, o ESG está diretamente incorporado nos nossos processos de decisão, na gestão de risco e nos mecanismos de controlo interno. A introdução de abordagens mais estruturadas à Inteligência Artificial responsável, bem como o reforço de políticas e certificações internacionais, são exemplos claros dessa integração na operação.
Na dimensão social, o impacto é visível na forma como estruturamos a gestão de talento, a formação contínua e o bem-estar dos colaboradores. O investimento em desenvolvimento, através da FS Academy e de outras plataformas de aprendizagem, bem como a aposta em DEI, têm impacto direto na forma como atraímos, desenvolvemos e retemos talento.
Em termos globais, o ESG deixou de ser uma função paralela e passou a estar integrado na lógica de negócio da Finsolutia, influenciando decisões operacionais, tecnológicas e estratégicas. Hoje, é um elemento transversal que suporta a nossa capacidade de crescimento sustentável, inovação e criação de valor a longo prazo.
O relatório mostra que mais de 98% das emissões estão concentradas no Scope 3 [todas as emissões indiretas de gases de efeito estufa (GEE) que ocorrem na cadeia de valor de uma organização, excluindo o consumo de energia elétrica]. Este é hoje o maior desafio para muitas empresas de serviços. Como se atua sobre emissões que dependem, em grande parte, de fornecedores, mobilidade ou cadeia de valor?
É um desafio comum a muitas organizações de serviços. O primeiro passo é medir e compreender essas emissões. Depois, é necessário trabalhar em colaboração com fornecedores, promover práticas mais sustentáveis na cadeia de valor e incentivar opções de mobilidade com menor impacto ambiental. Embora estas emissões não estejam totalmente sob o controlo direto da empresa, podemos influenciar comportamentos, critérios de contratação e processos de decisão que contribuam para a sua redução ao longo do tempo.
“Estamos a explorar o potencial da IA para aumentar a eficiência operacional, melhorar a análise de dados, apoiar a tomada de decisão e reforçar a qualidade dos serviços prestados aos clientes. O objetivo não é substituir pessoas, mas potenciar capacidades e libertar equipas para tarefas de maior valor acrescentado”.
A Inteligência Artificial está a transformar profundamente o setor financeiro. Qual o papel da IA na atividade da Finsolutia? A tecnologia faz parte do ADN da Finsolutia…
A tecnologia faz parte do ADN da Finsolutia e a Inteligência Artificial representa uma evolução natural desse percurso. Estamos a explorar o potencial da IA para aumentar a eficiência operacional, melhorar a análise de dados, apoiar a tomada de decisão e reforçar a qualidade dos serviços prestados aos clientes. O objetivo não é substituir pessoas, mas potenciar capacidades e libertar equipas para tarefas de maior valor acrescentado.
Como garantir que esta evolução acontece de forma ética, transparente e responsável?
A inovação tecnológica só gera valor sustentável quando é acompanhada por mecanismos adequados de governance. Por isso, temos vindo a desenvolver uma abordagem estruturada para a utilização responsável da IA, assente em princípios de transparência, supervisão humana, proteção de dados, mitigação de enviesamentos e gestão de riscos. A confiança dos clientes depende da forma como utilizamos a tecnologia.
Considera que, no futuro, uma boa governance da IA será tão importante para a confiança dos clientes como hoje são a cibersegurança ou a proteção de dados?
Acredito que sim. À medida que a IA se torna mais presente nos processos empresariais, os clientes irão querer compreender, não apenas que tecnologia é utilizada, mas também como é utilizada. Tal como aconteceu com a cibersegurança e a privacidade, a governance da IA tenderá a tornar-se um fator crítico de confiança, reputação e diferenciação competitiva.
“O objetivo não é apenas alcançar métricas, mas garantir que o acesso a oportunidades de liderança é baseado no mérito, na competência e na igualdade de condições”
Em Portugal, 54% das posições de liderança são ocupadas por mulheres. A diversidade é resultado de uma política deliberada ou de uma evolução natural da organização?
É resultado de uma combinação dos dois fatores. Por um lado, existe uma evolução natural da organização, que reflete a composição do nosso talento e o crescimento das equipas ao longo do tempo. Por outro, temos vindo a reforçar de forma deliberada práticas de diversidade, equidade e inclusão, nomeadamente através da nossa estratégia/política ibérica de diversidade, equidade e inclusão lançada em 2025.
O objetivo não é apenas alcançar métricas, mas garantir que o acesso a oportunidades de liderança é baseado no mérito, na competência e na igualdade de condições. O facto de, em Portugal, mais de metade das posições de liderança serem ocupadas por mulheres demonstra que esse equilíbrio é possível quando existe uma cultura organizacional inclusiva e consistente.
O relatório destaca mais de 14 mil horas de formação e acesso à aprendizagem para todos os colaboradores. Que competências estão hoje a ser mais valorizadas numa empresa tecnológica como a Finsolutia?
Num contexto de transformação digital e crescente complexidade regulatória, as competências mais valorizadas são uma combinação de capacidades técnicas, digitais e comportamentais.
Destacam-se as competências em tecnologia e dados, bem como competências ligadas à cibersegurança, privacidade e continuidade de negócio. Em paralelo, ganham cada vez mais relevância as competências humanas, como pensamento crítico, capacidade de adaptação, colaboração e liderança.
A evolução do nosso modelo de formação reflete precisamente a necessidade de equilibrar competências técnicas e humanas. Para isso, contamos com a FS Academy como base interna de desenvolvimento e com uma forte aposta em plataformas externas de formação, assegurando a todos os colaboradores acesso contínuo e abrangente a oportunidades de aprendizagem.
“Outro desafio relevante é garantir a retenção de talento num mercado altamente competitivo, especialmente em áreas tecnológicas e de dados”
Que desafios continuam por resolver no plano do desenvolvimento de talento?
O principal desafio prende-se com a velocidade da mudança tecnológica. As competências exigidas evoluem rapidamente, o que obriga a uma atualização contínua dos perfis e dos planos de formação.
Outro desafio relevante é garantir a retenção de talento num mercado altamente competitivo, especialmente em áreas tecnológicas e de dados. Para responder a isto, estamos a reforçar a ligação entre desenvolvimento, progressão de carreira e reconhecimento, incluindo a futura implementação de planos de carreira estruturados e de uma política de compensação variável mais alinhada com o desempenho.
O relatório refere a intenção de obter a certificação ISO 42001. O que representa esta certificação e porque decidiram avançar por esse caminho numa fase ainda relativamente inicial da adoção desta norma?
A ISO 42001 representa o primeiro standard internacional dedicado à gestão responsável de sistemas de inteligência artificial. Define um enquadramento estruturado para governance, gestão de risco, ética e transparência na utilização de IA.
A decisão de avançar nesta fase reflete uma opção estratégica: queremos garantir que a adoção de inteligência artificial na Finsolutia é feita desde o início com critérios claros de responsabilidade, controlo e supervisão humana. Mais do que uma resposta a exigências futuras, trata-se de uma forma de antecipar boas práticas e reforçar a confiança de clientes, reguladores e parceiros.
A empresa renovou diversas certificações internacionais em áreas como segurança da informação, privacidade, continuidade do negócio e compliance, sem não-conformidades. Até que ponto estas certificações representam uma vantagem competitiva junto dos clientes e investidores?
Estas certificações são um elemento estruturante da nossa proposta de valor. Não são apenas um requisito de conformidade, mas uma demonstração objetiva de maturidade organizacional em áreas críticas como segurança da informação, privacidade e continuidade de negócio.
O facto de todas as certificações terem sido renovadas sem não-conformidades reforça a credibilidade dos nossos processos e transmite confiança ao mercado. Para clientes e investidores, este enquadramento reduz risco e valida a robustez do nosso modelo operacional.
Quais são as principais metas ESG da Finsolutia para os próximos anos? Onde espera que a empresa consiga evoluir mais rapidamente?
As nossas prioridades passam por aprofundar a integração do ESG na estratégia e na operação diária, num contexto de evolução organizacional e reforço da escala do negócio.
Do ponto de vista ambiental, o foco continuará na redução da intensidade carbónica, em particular nas emissões de Scope 3, que representam a maior parte do nosso impacto e onde existe o maior potencial de melhoria estrutural. Reconhecemos que o Scope 3 é um dos principais desafios nesta área, precisamente por depender em grande medida da cadeia de valor e de fatores externos à operação direta. Por esse motivo, estamos a trabalhar no reforço da nossa capacidade de medição, análise e identificação de alavancas de redução, com vista à definição progressiva de medidas mais estruturadas e eficazes.
Na vertente social, o objetivo é consolidar a estratégia DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão), reforçar a ligação entre desenvolvimento de talento e progressão de carreira e continuar a investir em formação contínua e bem-estar.
Em governance, destacamos a evolução na governação da inteligência artificial, nomeadamente através da futura certificação ISO 42001, bem como o reforço contínuo dos sistemas de controlo, compliance e gestão de risco.
A área onde esperamos uma evolução mais acelerada é precisamente a governance de tecnologia e IA, dada a sua relevância crescente para o setor financeiro e o papel cada vez mais central que estas soluções terão na organização.
“O ESG na Finsolutia não é um exercício de reporte, mas sim um modelo de gestão integrado”
Se tivesse de resumir numa ideia aquilo que o Relatório ESG 2026 demonstra sobre a Finsolutia, qual gostaria que fosse a principal mensagem retida por clientes, parceiros e mercado?
A principal mensagem é que o ESG na Finsolutia não é um exercício de reporte, mas sim um modelo de gestão integrado.
O relatório demonstra uma organização que combina crescimento tecnológico com responsabilidade ambiental, social e de governance, e que procura criar valor de forma sustentável e transparente. Mais do que cumprir padrões, o nosso objetivo é incorporar estes princípios na forma como operamos, inovamos e nos relacionamos com os nossos stakeholders.
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