Dólar: menos paixão, mas sem alternativa
Pela primeira vez, uma sondagem da OMFIF mostra mais bancos centrais a planearem reduzir do que aumentar reservas em dólares. Apesar disso, o dólar está a valorizar 3% este ano, dada a perspetiva de juros americanos mais altos e uma economia mais dinâmica. É uma contradição reveladora.
A OMFIF é um think tank sediado em Londres, fundado em 2010, dedicado à política monetária e gestão de reservas. O inquérito, a cerca de 90 bancos centrais e fundos soberanos com biliões de dólares sob gestão, mostra 79% dos bancos centrais e 60% dos fundos públicos a acreditar num mundo monetário “multipolar”.
A alternativa mais citada é o ouro, omnipresente das reservas centrais e que já ultrapassou as Treasuries no balanço dos bancos centrais europeus (27% contra 22%), em boa parte por efeito de preço. Euro e renminbi (yuan chinês) mantêm intenções de reforço, mas com limitações estruturais reconhecidas.
Compreende-se o diagnóstico: um quarto de século de hegemonia americana cada vez menos óbvia, um Trump mais dirigista, tarifas como arma, pressão sobre a Fed, dúvidas sobre o Estado de direito e o congelamento de ativos russos e iranianos a lembrar que a reserva mais “segura” do mundo pode deixar de estar disponível para o seu dono de um dia para o outro.
O problema está nas alternativas. O ouro não rende, tem custos logísticos e falta-lhe profundidade para servir de ativo de reserva e de garantia numa base diária.
O euro não tem dívida comum aos países que o constituem que se compare aos T-Bonds dos EUA; o renminbi tem controlos de capitais e opacidade; franco suíço, coroa norueguesa e libra são mercados pequenos de mais. Criptoativos, stablecoins e CBDC também não são, pelo menos para já, alternativas — aliás, as stablecoins mais usadas estão indexadas ao próprio dólar.
Os dados do FMI mostram o dólar em 56,77% das reservas no 4º trimestre de 2025, praticamente estável face ao trimestre anterior. Há, efetivamente, uma erosão lenta desde o pico acima de 70% em 2001, mas não uma fuga e boa parte da oscilação trimestral resulta de efeitos cambiais de avaliação e não de vendas. Além disso, o dólar continua a dominar 90% das transações cambiais.
Conclusão: o dólar é cada vez menos perfeito e a desconfiança é legítima. Mas a multipolaridade cambial ainda parece distante. Sem alternativas com profundidade, liquidez e previsibilidade, o dólar vence por defeito — não por ser amado, mas por ainda não haver para onde fugir.
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