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A Europa procura o inimigo errado

A Europa procura o inimigo errado

As grandes civilizações raramente entram em declínio porque seus rivais se tornam mais fortes. Normalmente, enfraquecem porque deixam de reconhecer e enfrentar suas próprias fragilidades. A Europa parece ter esquecido essa lição. Nas últimas semanas, a União Europeia voltou a endurecer sua política comercial em relação à China. Os debates sobre veículos elétricos, painéis solares, terras raras e outras indústrias estratégicas ganharam novo fôlego, alimentando a percepção de que a ascensão chinesa representa a principal ameaça ao futuro económico europeu. A preocupação é legítima. O problema é que a Europa parece estar procurando o inimigo errado.
É inegável que a China ocupa hoje uma posição central na economia mundial. O país construiu uma das maiores bases industriais da história, investiu consistentemente em infraestrutura, educação, pesquisa científica e inovação tecnológica, e consolidou cadeias produtivas altamente integradas. Ignorar a dimensão desse desafio seria um erro. Contudo, transformar a China na principal responsável pelo enfraquecimento económico europeu significa confundir a concorrência com a causa.
Muito se discute o papel do Estado na economia chinesa. Pequim coordena investimentos, apoia setores estratégicos e adota políticas industriais para acelerar a inovação. Mas a ideia de que esse modelo representa uma exceção histórica dificilmente resiste aos fatos. Os Estados Unidos protegeram sua indústria nascente durante grande parte do século XIX e, hoje, subsidiam semicondutores e tecnologias verdes por meio do CHIPS and Science Act (2022) e do Inflation Reduction Act (2022).
O Japão e a Coreia do Sul recorreram, durante décadas, a políticas industriais ativas para construir seus campeões nacionais. A Alemanha desenvolveu sua extraordinária capacidade manufatureira por meio de uma estreita coordenação entre o Estado, a indústria e o sistema financeiro. A própria União Europeia mantém, há décadas, uma das maiores políticas de apoio público do mundo por meio da Política Agrícola Comum. A China não inventou a política industrial nem a coordenação estratégica da economia. Como outras grandes potências antes dela, utiliza esses instrumentos para fortalecer sua competitividade e ampliar sua capacidade tecnológica. O verdadeiro desafio europeu não está em condenar essa realidade, mas em decidir como responder a ela.
Nada disso significa ignorar práticas que possam distorcer a concorrência ou justificar preocupações legítimas. A Europa tem razões para diversificar as cadeias de suprimento, proteger setores estratégicos e reduzir vulnerabilidades excessivas. Entretanto, nenhuma tarifa, investigação antissubsídios ou barreira comercial compensará décadas de crescimento anêmico da produtividade, custos elevados de energia, envelhecimento demográfico, fragmentação do mercado interno e investimento insuficiente em inovação. O problema europeu não começou em Beijing e dificilmente terminará em Bruxelas.
É precisamente por isso que o debate sobre autonomia estratégica precisa ser redefinido. A verdadeira autonomia não consiste em reduzir a dependência da China para aumentar a dependência dos Estados Unidos, nem em substituir um fornecedor por outro. Consiste em recuperar a capacidade de produzir conhecimento, transformar pesquisa em inovação, financiar empresas tecnológicas, garantir energia competitiva e reconstruir uma base industrial capaz de liderar os setores do futuro. Dependências podem ser administradas; a perda persistente de competitividade compromete a própria soberania económica.
A Europa não precisa escolher entre Washington e Beijing. Precisa, antes de tudo, voltar a acreditar em si mesma. Seu futuro não dependerá da capacidade de conter a ascensão chinesa, mas da capacidade de reconstruir sua própria base de conhecimento, inovação, investimento e produção. A China continuará crescendo, inovando e competindo. Essa não é uma variável que a Europa controla. O que está ao alcance dos europeus é decidir se continuarão procurando o inimigo errado ou se voltarão a fazer aquilo que, durante séculos, distinguiu o continente: transformar conhecimento em prosperidade, inovação em poder e concorrência em estímulo à renovação.
A história raramente recompensa sociedades que confundem concorrentes com culpados. Recompensa aquelas que compreendem que a verdadeira força não nasce da busca por inimigos, mas da capacidade de renovar a própria civilização.

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