Tesouro norte-americano duplica compras de obrigações e analistas preveem turbulência
O Departamento do Tesouro norte-americano vai aumentar a compra de obrigações, nos prazos entre os 10 anos e os 30 anos, em pelo menos o dobro. “O limite máximo passou de dois mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) por operação para pelo menos quatro mil milhões de dólares (3,4 mil milhões de euros)”, anunciou. Analistas alertam que a decisão pode trazer turbulência ao mercado.
A medida entra em vigor a 9 de setembro e “manter-se-á em vigor” durante o resto deste trimestre de refinanciamento (até 4 de novembro de 2026). “O Tesouro fornecerá mais informações sobre os tamanhos futuros das recompras no próximo Relatório Trimestral de Refinanciamento, agendado para 4 de novembro de 2026”, explicou. “Este aumento dos tamanhos das operações de recompra reflete o desejo do Tesouro de proporcionar um maior apoio à liquidez nos setores de longo prazo com cupão nominal, onde existe um forte apoio consistente por parte dos participantes do mercado, como evidenciado pelo volume significativo de ofertas de alta qualidade que o Tesouro recebe rotineiramente nas operações de recompra de longo prazo”, acrescentou.
A medida do governo norte-americano surge depois de terem sido batidos máximos, ao nível da obrigações, nesta semana. “A yield [juro pago pelas obrigações] das obrigações norte-americanas a 30 anos avançou na segunda-feira, 17 de agosto, para 5,31%, o que representa um máximo de 2007 e um agravamento de 40 pontos base desde o início de junho. A taxa das obrigações do Canadá com a mesma maturidade avançou para o nível mais elevado desde 2010 e no Japão estão a renovar máximos deste século. A tendência é similar no mercado europeu, com a yield das obrigações francesas a 30 anos no nível mais elevado desde 2008, refletindo a ansiedade com as negociações para o orçamento e as eleições de 2027. Na Alemanha as yields estão em máximos de 2011 e o país deve pagar a taxa mais elevada em 15 anos numa emissão de dívida sindicada que está no mercado”, assinalou a consultora BA&N esta terça-feira, 18 de agosto.
A intervenção do executivo aliviou, durante a sessão de quinta-feira, as yields das obrigações dos Estados Unidos. Mas mesmo assim ainda ficam à frente das yields de vários países. As norte-americanas a 30 anos estavam nos 5,25%, as canadianas nos 4,15%, as japonesas nos 4,01%, as francesas nos 4,90%, as alemãs nos 3,76% e as portuguesas nos 4,27%.
Analistas estão a prever turbulência
Analistas do site Market Watch referiram que, em setembro, espera-se que os investidores em empréstimos corporativos, que já estão a pressionar o mercado com uma enorme oferta de novos títulos para financiar a expansão da inteligência artificial, intensifiquem ainda mais essa pressão. Isso ocorrerá justamente quando o Tesouro começar a aliviar o mercado por via do aumento das recompras de títulos do governo de longo prazo.
“O período após o Dia do Trabalho (primeira segunda-feira de setembro) e o regresso às aulas é tradicionalmente uma época movimentada nos mercados primários de títulos corporativos de grau investimento nos Estados Unidos”, disse Nicholas Elfner, da Breckinridge Capital Advisors, citado pelo Market Watch. “É possível que haja uma emissão de 200 mil milhões de dólares (171,1 mil milhões de euros) em setembro, embora dependa de um delicado equilíbrio entre oferta e procura”, observou.
A alta nas taxas de juros dos títulos do Tesouro — um ponto de partida para a precificação de empréstimos e novos títulos corporativos — significa um aumento nos custos de financiamento para empresas, famílias e governo federal. O lado bom – num equilíbrio que é um dos grandes ‘quebra-cabeças’ dos economistas há décadas – é que a alta ajuda a incentivar os investidores a continuarem a participar em novas emissões de títulos dos EUA, ou seja, levando-os a manter os seus ativos financeiros nos Estados Unidos, em vez de irem à procura de outras geografias.
Emissões já subiram 38%
A emissão de títulos corporativos de grau de investimento nos EUA já aumentou 38% em 2026 em comparação com o ano anterior, refere o site. A consultora BofA Global prevê um recorde de 2,1 mil milhões de dólares (1,8 mil milhões de euros) em ofertas para todo o ano de 2026. Uma parcela significativa será emitida nas próximas semanas, o que pode agravar os problemas no mercado de títulos do Tesouro, onde o apetite por títulos de longo prazo tem sido fraco. Isso deve-se a preocupações com a crescente dívida dos Estados Unidos e com o défice orçamental federal – que a administração Trump aumenta sem olhar ‘ao amanhã’ – e à incerteza sobre como o novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, planeia conter a inflação. Elevará as taxas de juro?
“O facto de os rendimentos dos títulos do Tesouro estarem em alta torna a dívida mais atraente”, disse Andrzej Skiba, da RBC Global Asset Management. Mas a quantidade gigantesca de dívida relacionada com IA emitida este ano também “dá a impressão de que estão a atingir um limite do que é possível sem perturbar o mercado”. As empresas de IA estão a explorar outras fontes de capital, incluindo negócios fora do balanço patrimonial como, entre outros, mega-financiamentos de projetos de data centers (ou centros de dados). A abundância de dívida geralmente é de longo prazo, às vezes emitida por empresas com classificações de risco superiores às do governo dos EUA. “Isso pode criar concorrência para títulos do Tesouro de longo prazo”.
Outra preocupação é que qualquer esforço para limitar os rendimentos dos títulos do Tesouro possa ser contraproducente, desencadeando uma onda de vendas de títulos corporativos, o que pode ampliar os spreads de crédito.
A administração Trump deixou clara a sua intenção de manter as taxas de juro dos títulos do Tesouro de longo prazo sob controlo, sendo o rendimento dos títulos a 10 anos frequentemente referido no setor financeiro como a “referência de acessibilidade”.
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