A inflação de inverno
Há vários indícios de que a inflação poderá continuar elevada à medida que o inverno se aproxima. Apesar de os indicadores de inflação subjacente continuarem a mostrar pouca evidência de efeitos de segunda ordem – ou seja, de que a subida de preços se esteja verdadeiramente a entranhar na economia –, é difícil estar otimista para os próximos meses.
Os dados mais recentes mostram que os preços continuam a subir na Zona Euro. A inflação homóloga em agosto atingiu os 3,3%, face a 2,9% em julho, acelerando para o valor mais alto em três anos. A subida explica-se, sobretudo, pela evolução agressiva dos preços da energia. Todavia, a inflação subjacente desceu de 2,5% para 2,4%. Este recuo pode ser tranquilizador e mostrar que a inflação tem subido apenas devido a choques na oferta, mas haverá razões para preocupação?
Na verdade, desta vez há motivos para acreditar que a inflação poderá continuar elevada. Os preços dos combustíveis permanecem em alta, com o gasóleo no mercado internacional a mais do que duplicar face há um ano. O efeito combinado da paralisação do Estreito de Ormuz e a destruição de refinarias no Médio Oriente e na Rússia faz crer que a situação seria difícil de reverter rapidamente, mesmo se os conflitos militares terminassem. Além disso, as reservas estratégicas de petróleo e refinados estão historicamente baixas. O gás natural na Europa negoceia em máximos de três anos e os níveis de armazenamento estão deprimidos, na casa dos 65%, muito abaixo da média de 88% para esta altura do ano. Caso o inverno seja rigoroso, poderá haver dificuldades de reabastecimento e cotações ainda mais altas, que influenciariam também os preços da eletricidade.
Na alimentação, receia-se que o El Niño seja particularmente severo este ano, sendo já certa a escalada dos preços do trigo, afetados pelo fecho de portos no Mar Negro. No plano político, é plausível que Donald Trump adote uma postura ainda mais agressiva em tarifas, imigração e política externa para deixar um legado na segunda parte do seu mandato, sabendo que não poderá ser reeleito.
Se a inflação continuar a subir à medida que o final do ano se aproxima, torna-se provável que esse fator influencie as negociações salariais para 2027. É nesse cenário que os choques de oferta se transformariam numa inflação mais estrutural.
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