Angola com défice anual de 7,4 mil milhões de euros para cumprir metas do desenvolvimento, revela BAD
Angola garante anualmente menos de 40% do financiamento necessário para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) por incapacidade de mobilizar e utilizar o capital disponível, revela o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) num relatório divulgado esta segunda-feira, 21 de setembro.
As conclusões constam do Relatório de Foco do País 2026 – Mobilizar o Financiamento para o Desenvolvimento de Angola em Escala num Mundo Fragmentado, apresentado em Luanda.
Angola precisa de um financiamento anual de 14 mil milhões de dólares (12,1 mil milhões de euros) para cumprir os ODS e os compromissos da Agenda África 2063 e apresenta um défice anual de 8,6 mil milhões de dólares (7,4 mil milhões de euros), refere-se no documento.
Para o BAD, este défice de financiamento “não é apenas devido à insuficiência de recursos”, mas também “à deficiente capacidade do país em mobilizar, intermediar e utilizar eficazmente o seu capital disponível em larga escala, num contexto global fragmentação”.
Os níveis de investimento estimados em 10,6% em 2025, acrescenta a instituição financeira, “permanecem abaixo do necessário para sustentarem o desenvolvimento [de Angola]”.
O relatório aponta a fraca intermediação financeira, a preparação inadequada de projetos, deficiências no uso de “procurement” (processo para identificar, avaliar, negociar e adquirir bens e serviços) concorrencial, a elevada informalidade [na economia] e escassez de fontes de financiamento de longo prazo entre as razões do referido défice.
Salienta-se igualmente no relatório que a poupança interna estimada em 15,7% em 2025 “é, em grande medida, subutilizada”, e o acesso a financiamento externo concessional “é cada vez mais limitado e com taxas de juros elevadas e exacerbado por um ambiente de incerteza global”.
Além disso, observa o BAD, a baixa mobilização de recursos internos, a fuga de capitais e o reduzido desenvolvimento dos mercados de capitais domésticos ainda dificultam a transformação da poupança em investimentos produtivos.
Na sua análise, o BAD destaca, contudo, a “forte resiliência” da economia angolana “refletida na melhoria da estabilidade macroeconómica e com um crescimento de 3,1% em 2025, fortemente influenciado pelo setor não petrolífero”.
De 2020 e 2025, os défices fiscais mantiveram-se abaixo dos 3% do Produto Interno Bruto (PIB); a inflação média anual reduziu de 25,8% para os atuais 8,79% e o rácio da dívida pública sobre o PIB diminuiu de 119% para menos de 50%, refere-se.
O relatório assinala também “alguns progressos” nos indicadores sociais do país, como a esperança de vida (aumentou de 62 para 65 anos), e a redução na mortalidade materna e infantil, “ganhos que embora modestos, se traduziram na melhoria do Índice de Desenvolvimento Humanos das Nações Unidas (…) em 2025”.
Entende o BAD que, apesar dos desafios colocados pela atual “fragmentação geopolítica”, as perspetivas de crescimento de Angola tornaram-se “mais favoráveis”, impulsionadas pela recuperação dos preços do petróleo, com o crescimento real do PIB previsto de 6,15% em 2026 (última projeção do Banco Nacional de Angola).
Contudo, observa a instituição, essa taxa de crescimento “permanece insuficiente para assegurar uma redução significativa da pobreza e responder às necessidades de desenvolvimento do país”.
“Estima-se que Angola necessite de crescer pelo menos 7% ao ano para acompanhar o rápido crescimento populacional, de cerca de 3,5% ao ano, enquanto mobiliza recursos suficientes para financiar as necessidades de investimento em infraestruturas (…)”, assinala o BAD.
O desafio central [de Angola], diz, consiste em transformar o atual impulso de crescimento numa trajetória mais elevada, sustentável e inclusiva, apoiada pela diversificação económica e aumento da produtividade.
Para o BAD, o sistema financeiro de Angola continua a ser pouco aprofundado, fragmentado e centrado nas zonas urbanas, o que limita a mobilização de capital e o crescimento inclusivo.
Acrescenta que apesar dos “progressos evidentes” em matéria de reformas e mitigação de riscos, subsistem lacunas na capacidade regulatória e na coordenação institucional, defendendo que Angola poderia beneficiar de parcerias mais sólidas com os bancos multilaterais de desenvolvimento.
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