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A China já não pede licença

A China já não pede licença

Há visitas de Estado que celebram relações e outras que medem relações de força. A chegada de Xi Jinping a Washington pertence à segunda categoria. Donald Trump foi recebê-lo à base aérea de Andrews e a Casa Branca preparou toda a coreografia dos grandes momentos diplomáticos. Mas seria um erro confundir o tapete vermelho com proximidade. Washington recebe o líder da única potência capaz de desafiar os Estados Unidos simultaneamente na economia, tecnologia, capacidade militar e influência política global.
A China já não é apenas a grande fábrica do mundo. É uma potência nuclear, possui a maior marinha em número de navios, investe em mísseis, espaço, ciberdefesa e inteligência artificial e transformou o Indo-Pacífico no principal palco da competição estratégica deste século. Taiwan continua a ser o ponto mais perigoso dessa equação.
Mas reduzir a China à rivalidade militar seria não perceber Xi. A força chinesa está na capacidade de jogar vários tabuleiros ao mesmo tempo. Pequim mantém uma relação estratégica com Moscovo, continua economicamente ligada ao Irão e apresenta-se, simultaneamente, como interlocutor indispensável para Washington. Trump quer que Xi utilize a sua influência sobre Teerão. Xi sabe que essa influência vale precisamente porque a China nunca alinhou integralmente com a estratégia americana para o Médio Oriente.
Existe ainda um tabuleiro maior. Na Organização de Cooperação de Xangai, Xi voltou a colocar a China no centro de um espaço que contesta a predominância ocidental. Nos BRICS, apresentou o “Sul Global” como força de uma nova multipolaridade. Não significa que Índia, Brasil ou África do Sul obedeçam a Pequim. Significa algo mais subtil: a China percebeu que não precisa de substituir os Estados Unidos para diminuir a sua hegemonia. Basta ajudar a construir um mundo onde Washington deixe de ser indispensável.
A Rússia pode destruir e desafiar a arquitetura de segurança ocidental. A China possui uma ambição diferente. Tem escala económica, capacidade industrial, poder militar, tecnologia e uma rede diplomática suficientemente vasta para discutir as próprias regras da ordem internacional.
No final desta visita dificilmente haverá um grande acordo histórico. Poderá haver compromissos no comércio, tecnologia ou cadeias de abastecimento e alguma linguagem comum sobre o Irão. Mas o resultado mais importante será provavelmente menos espetacular: estabelecer limites para uma rivalidade que nenhum dos dois pode eliminar e que nenhum quer deixar transformar-se em confronto.
Trump e Xi não precisam de resolver a competição entre as duas potências. Precisam de aprender a administrá-la.
No século passado, Washington perguntava como integrar a China na ordem internacional. Hoje a pergunta é outra: que ordem existirá se a China já não aceitar apenas o lugar que lhe foi reservado?
A China já não pede licença.

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