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Seul como espelho da Europa

Seul como espelho da Europa

Há perguntas que só se tornam nítidas quando as fazemos longe de casa. Foi o que aconteceu durante a visita a Seul, no âmbito do Future Lab, plataforma do Partido Popular Europeu (PPE), no Parlamento Europeu, que acompanha tendências tecnológicas e geopolíticas fora da União.
A Coreia do Sul não é um parceiro distante: é um espelho incómodo que nos obriga a confrontar dilemas que, em Bruxelas, tendemos a adiar.
A primeira lição vem da vulnerabilidade partilhada. A Coreia enfrenta um problema estrutural que a Europa reconhece, mas que os coreanos vivem com maior acuidade: os seus dois maiores parceiros comerciais (a China e os EUA) estão em tensão permanente, e essa tensão esmaga quem está no meio. Sem mercado interno grande o suficiente para amortecer os choques, cada escalada entre Washington e Pequim é, para Seul, um problema existencial.
O Ministério da Indústria apresentou um diagnóstico familiar para os europeus: nas terras raras, nos semicondutores e nas baterias, a dependência de um único fornecedor é uma vulnerabilidade estratégica. A diferença é que a Coreia já está a agir, ao diversificar origens, constituir reservas estratégicas e investir na reciclagem dos componentes.
Aliás, o ponto de encontro mais natural com a Europa está em querer aprender com a experiência europeia em reciclagem e economia circular; e a Europa pode beneficiar da capacidade coreana de traduzir investigação em aplicação industrial. E ambas partilham a mesma leitura do risco: a China é um parceiro necessário, mas imprevisível.
A segunda lição vem da inteligência artificial (IA). Na visita ao Instituto de IA da Seoul National University, ficou claro que a Coreia recusa a falsa dicotomia entre inovação e regulação. A resposta é pragmática: não há fórmulas abstractas, há casos concretos. O país releu as disposições de “interesse legítimo” na lei de proteção de dados para permitir que empresas utilizem dados recolhidos na internet para treino de modelos, com salvaguardas acordadas com o regulador. Um canal de consulta prévia oferece garantias contra investigações futuras. É uma abordagem que a Europa deveria estudar, sobretudo no debate sobre o Digital Omnibus (pacote para a simplificação de regras e redução de burocracia) e o uso de dados para treino de IA.
A Coreia apostou nos seus pontos de alavancagem na cadeia de valor global: chips de memória, infraestrutura energética, modelos para o mercado doméstico. A pergunta certa não é “chegámos tarde?”, mas antes “onde podemos fazer a diferença?” A mesma lógica que levou a Europa a apostar na empresa ASML.
A terceira lição é sobre parceria. A Coreia vê a União Europeia como o seu maior investidor. O acordo de livre comércio de 2011 quase duplicou as trocas comerciais. A cimeira de junho deste ano acrescentou um acordo de comércio digital. Mas a relação continua a ser vista, do lado coreano, como uma relação de mercado. Transformá-la numa parceria estratégica real exige que a Europa marque maior presença, e que a Coreia abra sectores como a energia eólica offshore, onde as barreiras continuam a ser um ponto de fricção.
Voltar de Seul com a sensação de que há muito a aprender não é uma confissão de fraqueza. É o reconhecimento de que os melhores parceiros são os que nos desafiam. A Coreia faz-nos perguntas que precisamos de responder. Como diversificamos dependências sem quebrar relações? Como regulamos a IA sem sufocar a inovação? Como transformamos mercados em alianças? As respostas não estão todas em Bruxelas. Algumas estão em Seul.

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