O tapete vermelho e a nova ordem mundial
Donald Trump foi receber Xi Jinping pessoalmente no aeroporto. Houve tapete vermelho, honras militares e jantar de Estado. Para quem passou anos ouvindo que a China deveria ser contida e isolada, a fotografia dos dois presidentes suscita uma pergunta: se Pequim estava tão encurralada, por que Washington lhe abriu as portas dessa maneira?
Uma recepção não decide o futuro da ordem mundial. Os Estados Unidos continuam sendo uma potência militar e financeira. Mas o cerimonial mostrou algo que as tarifas e as ameaças procuram esconder: Washington já não consegue tratar a China como um problema que pode resolver por conta própria.
Xi não chegou à capital americana para pedir licença para existir no sistema internacional. Chegou como presidente de um país com o qual os próprios Estados Unidos têm dificuldade de lidar com comércio, tecnologia e segurança. Trump sabe disso. Pode chamar a China de adversária e impor restrições. Quando Xi desce do avião, porém, vai recebê-lo.
A visita não eliminou as disputas sobre Taiwan ou tecnologia. Mostrou, isso sim, que até uma relação competitiva precisa de conversa. Nenhuma tarifa substitui a diplomacia entre as duas maiores potências do mundo.
Trump transformou a imprevisibilidade em um método de governo. Hoje anuncia uma tarifa; amanhã oferece uma negociação. Cobra lealdade dos aliados, mas deixa que descubram, a cada encontro, quanto vale essa lealdade. Declara guerra por escolha. Por outro lado, Xi transmite outra mensagem: continuidade, planejamento e estabilidade. A China também gera insegurança entre seus vizinhos. Ainda assim, a diferença pesa quando outros países decidem com quem assumir compromissos de longo prazo.
A Europa deveria observar a cena com atenção. Durante décadas, tratou a aliança americana como um dado permanente. Hoje vê antigos compromissos serem discutidos como cláusulas de um contrato comercial, enquanto o principal rival estratégico de Washington recebe todas as honras. Não admira que os europeus procurem ampliar sua autonomia. Mas, para isso, terão de fazer profundas mudanças em sua estrutura social e de trabalho.
Talvez esta tenha sido a última vez em que Xi encontrou um Trump ainda fortalecido. As eleições intercalares se aproximam, e uma derrota republicana pode transformá-lo num pato manco, com menos força no Congresso para cumprir o que promete. Xi continuará à frente da China e, provavelmente, encontrará, na próxima vez, um interlocutor politicamente mais fraco.
Xi foi a Washington porque os Estados Unidos permanecem poderosos demais para serem ignorados. Trump estendeu o tapete vermelho porque a China se tornou importante demais para ser tratada apenas pela contenção. A fotografia não mostrou o fim do poder americano. Mostrou o fim de um tempo em que Washington podia acreditar que esse poder, por si só, bastava. E isto já não é mais a realidade.
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