DBRS: Bancos europeus mantêm folgas de capital sólidas apesar de dividendos recorde
Os bancos europeus continuam a apresentar níveis de capitalização sólidos, mesmo num ambiente operacional marcado por distribuições recorde aos acionistas, expansão do balanço, atividade de fusões e aquisições e incerteza geopolítica. É a conclusão de uma análise da Morningstar DBRS a 40 grandes bancos europeus, divulgada esta quarta-feira, que mostra que a relação Common Equity Tier 1 (CET1) média superou os 15% no final do primeiro semestre de 2026.
Os rácios de payout (distribuição de dividendos) subiram na maioria dos países em 2025, com os nórdicos (80%) e os italianos (72%) nos níveis mais elevados. “Esperamos que as distribuições aos acionistas permaneçam generosas, mas cresçam a um ritmo mais lento à medida que a rentabilidade se normaliza e os bancos convergem para os seus objetivos de capital”, afirmou Andrea Costanzo, Vice-Presidente de Ratings de Instituições Financeiras Europeias da Morningstar DBRS, no comunicado.
Apesar de os bancos terem distribuído cerca de 81 mil milhões de euros em dividendos relativos aos resultados de 2025 — um máximo histórico, 8% acima do ano anterior e 28% acima de 2023 —, além de continuarem a recorrer a buybacks, as folgas de capital médias rondaram os 450 pontos base acima dos requisitos regulamentares mínimos.
Segundo a DBRS, Portugal destaca-se com a maior folga da amostra (800 pontos base), seguido da Alemanha (530), Irlanda (520) e Países Baixos (510). Os bancos nórdicos (230) e britânicos (210) apresentam as folgas mais apertadas.
A resiliência do setor tem por base uma rentabilidade mais forte do que o inicialmente previsto: o retorno sobre o capital próprio médio (ROE) anualizado melhorou em quase todos os países entre 2022 e o primeiro semestre de 2026, com os bancos espanhóis a liderar (16,6%), seguidos dos nórdicos (14,3%), italianos (14,1%) e britânicos (13,8%), segundo o comentário da agência de rating.
As margens de juro protegidas por hedges estruturais, o crescimento de crédito, a diversificação para comissões e um baixo custo do risco mais do que compensaram a pressão sobre os rendimentos financeiros desde que o BCE iniciou o ciclo de descida das taxas, em junho de 2024, acrescenta a DBRS.
Folgas a apertar-se gradualmente
A análise sublinha, no entanto, que o headroom de capital (folga) está a reduzir-se paulatinamente. Entre o final de 2022 e junho de 2026, os ativos ponderados pelo risco (RWA) cresceram cerca de 10% em agregado, impulsionados pelo crescimento de crédito e por operações de consolidação — com destaque para a Grécia (+18%) e Itália (+14%). Os rácios CET1 recuaram ligeiramente na maioria dos países no primeiro semestre de 2026 face ao final de 2025, refletindo os acréscimos de distribuições, o crescimento de crédito e a atividade de M&A, e não uma deterioração da qualidade dos ativos, que continua contida.
Os principais riscos apontados são a incerteza geopolítica e geoeconómica, que poderá abrandar o crescimento económico e pressionar a qualidade dos ativos, bem como o alargamento dos spreads da dívida soberana, embora este último tenha um impacto gerível dado o peso das carteiras de obrigações públicas contabilizadas pelo custo amortizado.
Simplificação regulamentar trará mais flexibilidade
Outro eixo da análise é a simplificação regulamentar em curso na União Europeia e no Reino Unido. A DBRS antecipa que as reformas — que incluem a fusão de buffers existentes em menos componentes, alguns dos quais autoridades poderiam libertar em períodos de stress — alterarão mais a estrutura e a usabilidade dos requisitos de capital do que o seu nível global. “Um enquadramento menos fragmentado e buffers mais libertáveis podem dar aos bancos maior flexibilidade na gestão de capital”, acrescentou Costanzo, acrescentando que o impacto nos perfis de crédito dependerá de como os bancos usarão essa flexibilidade.
Entretanto, os requisitos Pillar 2 (P2R) tornaram-se ligeiramente menos exigentes em 2026 face a 2025 em sete dos nove países analisados, de acordo com dados do BCE atualizados em fevereiro, embora os requisitos globais de capital tenham aumentado em média devido a buffers contracíclicos e de risco sistémico mais elevados.
Os bancos europeus entram assim na próxima fase numa posição de força de capital — bem equipados para absorver choques geopolíticos, comerciais e económicos —, mas com folgas que se espera continuem a afinar-se gradualmente num cenário de distribuições elevadas, crescimento do balanço e consolidação do setor.
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