Euro digital: a banca portuguesa não pode esperar por Frankfurt
Até hoje, o dinheiro do cidadão comum tem existido em duas formas: notas e moedas emitidas pelo banco central e depósitos criados pelos bancos comerciais. O euro digital acrescenta uma terceira: dinheiro público, em formato eletrónico, guardado numa carteira digital e aceite em toda a zona euro. Parece apenas um avanço técnico. É, na verdade, uma mudança na arquitetura do sistema financeiro.
O risco mais falado é a fuga de depósitos. Numa crise, o cliente pode passar a preferir dinheiro do banco central a dinheiro de um banco comercial. Os limites de detenção em discussão servem para travar esse risco, mas não o eliminam. Para uma banca como a portuguesa, muito assente em depósitos de retalho, o tema tem de estar na agenda estratégica e não apenas no departamento de compliance.
Para o comércio, o impacto pode ser imediato. Um meio de pagamento público, aceite em toda a zona euro e com custos de aceitação potencialmente mais baixos, mexe com as comissões que hoje pesam nas margens de lojistas e plataformas. Para um país onde o pequeno comércio e o turismo têm grande peso, esta discussão não pode ficar reservada aos bancos centrais e aos supervisores.
Há um risco menos visível e talvez mais relevante: a perda de dados e de margem nos pagamentos. Hoje, uma parte importante dos pagamentos com cartão na Europa passa por redes internacionais. O euro digital é também uma resposta europeia de soberania. Quem controlar as carteiras, a experiência do utilizador e os serviços associados ficará com a relação com o cliente.
É aqui que surge a oportunidade. O euro digital deverá ser distribuído por intermediários supervisionados. Os bancos que o tratarem como infraestrutura sobre a qual construir serviços, como pagamentos condicionais, faturação automática ou soluções para comércio e PME, podem ganhar. Os que se limitarem a cumprir os mínimos vão assistir à entrada de novos concorrentes.
Para as fintechs portuguesas, a janela é real. Portugal tem talento técnico, custos competitivos e uma tradição de inovação em pagamentos de que o Multibanco é o exemplo mais conhecido. Uma empresa que desenvolva hoje soluções compatíveis com o euro digital pode vendê-las amanhã a toda a zona euro.
O desafio é jurídico e operacional: privacidade, regras contra o branqueamento de capitais, responsabilidade em caso de falha e interoperabilidade com os sistemas existentes. Quem dominar estas regras cedo terá uma vantagem competitiva. Quem esperar pelo texto final para começar a pensar chegará atrasado.
O dinheiro está a mudar de forma. A banca portuguesa pode olhar para isso como uma ameaça a gerir ou como uma plataforma para crescer. A escolha é estratégica e tem de ser feita agora.
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