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Dhaka: o mais orgânico trânsito do mundo

Dhaka: o mais orgânico trânsito do mundo

Aconteceram as eleições, respira-se de alívio. Venceu o estado secular face ao crescimento do partido islâmico, curiosamente aqui visto como extrema-direita. Mas o optimismo é moderado. O fundamentalismo, não vencendo, vai enraizando.
Tarique Rahman é o novo primeiro-ministro do Bangladesh, ele filho de uma ex-primeira-ministra e de um antigo presidente da República vem suceder à anterior primeira-ministra, Sheikh Hasina, por sua vez filha do chamado pai da república Sheikh Mujibur Rahman. Duas famílias vão dividindo, com muito conflito, o poder no Bangladesh. Nas ruas, todos os muros do centro são como outdoors, falam de liberdade, da geração Z, de luta contra a repressão. No mesmo dia das eleições, um referendo constitucional, valeu o “sim”, mas há aspectos menos consensuais. A discussão prossegue, com a certeza de que não se quer a autocracia.
Oito anos depois, Dhaka é a mesma efervescência tão densamente povoada como generosa. Bairros modernos, uma linha de metro imponente, auto-estradas e pontes novas, mas nas ruas do centro a mesma vibração, a mesma curiosidade pela visita de estrangeiros abre conversas do nada – Donde somos, Ronaldo claro, porque viemos, uma selfie juntos. Mas tudo bem, ainda não somos alvos de turismo, somente de muito “eye contact”.
É um fascínio passear a pé pelas ruas repletas de gente, mas a respiração pesa e pede água para sossegar olhos e garganta. O sol está sempre coberto por uma neblina que o avermelha. Atravessamos as ruas, primeiro a medo, porque não parece possível uma aberta, mas vamos vendo que somos vistos porque os condutores ajustam a condução a esta peça a mais que somos nós a atravessar as 2 faixas, que afinal são 3 ou 4, onde cabem riquexós (os pedais deram lugar a baterias), os CNG (uma espécie de mini-carochas verdes), as motorizadas e bicicletas, os autocarros altos dos postais de Londres, mas todos com a chapa engelhada, e os automóveis, que parecem inadaptados nestas ruas.
Tudo flui devagar, nada chega a parar, tangentes de 1 cm, mas nada roça. Há que fazer o mesmo, fluir, passo sereno, previsível, de frente para o trânsito, para sermos bem acomodados por este organismo fluido, que se deixa atravessar se formos gentis.
Não importa a potência, tudo o que tem rodas avança à mesma velocidade, a não ser quando encontra um semáforo que faz uma contagem decrescente de 400 segundos, sim, 6’40’’. Buzinas tocam sem parar, como se fossem sonares, e às horas do Salá (as 5 orações diárias) junta-se o chamamento dos minaretes. A fusão de canto e apitadelas envolvem a cidade e nós sentimos uma magia. Estamos na primeira semana do Ramadão.
O autor assina quinzenalmente este “Caderno de Viagem”. Esta é a segunda crónica no Bangladesh.

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