Petróleo: ‘frota fantasma’ já rendeu 5,4 mil milhões de euros ao Ocidente
O Ocidente tem beneficiado com a venda de petroleiros que entram na chamada ‘frota fantasma’ para depois alimentar as necessidades energéticas de países como a Rússia, Venezuela e Irão, sobre os quais recaem sanções. Dados da S&P Global, divulgados em setembro de 2025, colocam a frota global destes navios em 978 navios (18,5% do total), um número superior aos 889 de novembro de 2024. Receitas geradas do lado russo situam-se entre 87 mil milhões de dólares e 100 mil milhões de dólares por ano (75,6 mil milhões de euros e 86,9 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual), de acordo com o Center for Strategic & International Studies (CSIS).
Em fevereiro de 2025 uma investigação da Follow the Money, em colaboração com o Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), dava conta da dimensão do negócio. Os dados indicaram que os armadores ocidentais já tiveram um lucro superior a 6,3 mil milhões de dólares (5,4 mil milhões de euros) com a venda de petroleiros antigos, que depois integram esta ‘frota fantasma’, navios que acabam por ser usados para contornar sanções mantendo as exportações de petróleo da Rússia. Mais de metade deste valor está ligado à Grécia.
“Estes navios vendidos à Europa e aos Estados Unidos representam quase 40% da ‘frota fantasma’ russa, ou cerca de 230 embarcações”, disse a mesma investigação, que acrescentou que mais de um terço da ‘frota fantasma’ russa é composta por petroleiros que pertenciam anteriormente a armadores de países ocidentais, “as mesmas nações que sancionaram” a Rússia pela sua agressão contra a Ucrânia. Mas dados da S&P adiantam que a ‘frota fantasma russa atinge os 561 navios, enquanto a iraniana e venezuelana se fica pelos 170 e 54 navios.
O Center for Strategic & International Studies (CSIS) refere que desde que as sanções limitaram as exportações de petróleo, no final de 2022, a Rússia terá adquirido uma ‘frota fantasma’ estimada entre 155 petroleiros e 435 embarcações no total, incluindo navios de apoio, podendo chegar aos 591 navios. “Esta ‘frota fantasma’, como é transporta cerca de 3,7 milhões de barris por dia, representando 65% do comércio marítimo de petróleo da Rússia, e gera uma receita estimada entre 87 mil milhões de dólares e 100 mil milhões de dólares por ano”, disse o mesmo centro.
Grécia tem peso na venda de petroleiros
A Follow the Money e o OCCRP adiantaram que “mais de metade” dos petroleiros identificados na investigação foram vendidos por 54 empresas operadas por gregos, totalizando pelo menos 3,7 mil milhões de dólares (3,2 mil milhões de euros). “Além da Tsakos, isto inclui a Marla Tankers, que vendeu dois petroleiros com 15 anos por cerca de 84 milhões de dólares (73 mil milhões de euros) em 2024. Outras empresas pertencentes e operadas por grupos gregos — incluindo a Toro Corp (com sede no Chipre), a Prime Marine e a Thenamaris — também se aproveitaram da procura de petroleiros, no meio dos esforços da Rússia para manter a sua frota. A Toro Corp, por exemplo, revendeu seis petroleiros antigos por 195,4 milhões de dólares (169,9 milhões de euros) entre 2023 e o início de 2024, cerca de dois anos após a compra, obtendo um lucro de 111,7 milhões de dólares (97,1 milhões de euros). Após os cinco petroleiros terem entrado para a ‘frota fantasma’, cada um deles foi sancionado pelo Reino Unido por transportar petróleo russo”, descreve a investigação.
Prática não constitui violação de sanções
As vendas realizadas por empresas ocidentais não violaram as sanções da União Europeia, dos Estados Unidos ou do Reino Unido, uma vez que os navios são vendidos a empresas registadas em jurisdições que não fazem parte do conjunto de sanções, como a Índia, o Vietname, Hong Kong ou as Seicheles, antes de integrarem esta ‘frota fantasma’, salienta a investigação da Follow the Money e o OCCRP. “Em vários casos identificados, os navios foram também vendidos uma segunda ou terceira vez através de um país diferente antes de chegarem à ‘frota fantasma’”, descreve.
A investigação adiantou também que 20 agências de recrutamento que servem esta ‘frota fantasma estão sediadas na Ucrânia, que oito agências de recrutamento desta frota operam dentro da União Europeia, “apesar de a União Europeia ter imposto sanções à frota clandestina”, para além de terem sido identificados sessenta navios nos quais “trabalhavam tripulantes fornecidos por empresas sediadas em países que impuseram sanções, incluindo a Ucrânia, a Letónia e o Chipre”.
Conflito no Médio Oriente trouxe frota clandestina à baila
O início do conflito no Médio Oriente trouxe à baila esta ‘frota fantasma’ de petroleiros. Com a guerra a afetar o fornecimento de petróleo, devido ao fecho do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo, o Politico avançava que países como a China e Índia ((são o primeiro e terceiro maior importador mundial de petróleo e possuem forte exposição ao Médio Oriente) poderiam virar-se para a frota petroleira russa para compensar a perda de barris vindos do Médio Oriente.
Um analista de relações União Europeia-Rússia do Centro de Investigação em Energia e Ar Limpo do Centro de Investigação em Energia e Ar Limpo, Vaibhav Raghunandan, citado pelo “Politico”, referia, este mês, que cerca de 1,3 mil milhões de euros em petróleo bruto russo chegou a estar em alto-mar à procura de compradores.
Falta de seguros
Uma característica desta frota clandestina está ligada à falta de seguros. Dados do KSE Institute, pertencente à Escola de Economia de Kiev, de fevereiro de 2025, referiam que 29,4% dos navios-tanque que transportam petróleo bruto russo e 56,2% dos navios-tanque que transportam produtos petrolíferos russos em 2024 possuíam seguro do International Group of P&I Clubs (IG). O IG é uma associação sem fins lucrativos composta por 12 dos principais clubes de Proteção e Indenização (P&I) do mundo, que fornecem cobertura de responsabilidade civil marítima para cerca de 90% da tonelagem oceânica global.
A percentagem para navios que transportam apenas carga de origem não russa são superiores a 90%. “É importante realçar que quanto maior for o volume total de crude russo, menor será a participação da cobertura IG, o que está em linha com o objetivo de evitar ao máximo o teto do preço do petróleo”, diz o KSE Institute.
“64,2% dos navios sem seguro IG estão registados em jurisdições classificadas como “em lista cinzenta”, “em lista negra” ou sem classificação, enquanto apenas um quarto dos navios com seguro IG se enquadram nesta categoria”, acrescenta o mesmo instituto.
A dimensão do problema foi tal que em 2025 o Reino Unido, a Dinamarca, a Suécia, a Polónia, a Finlândia e a Estónia solicitaram às respetivas autoridades marítimas comprovativos de seguros a embarcações suspeitas de pertencerem a esta frota clandestina quando estes navios passam por locais como o Canal da Mancha, o Estreito de Great Belt (na Dinamarca), o Estreito de Øresund, entre a Dinamarca e a Suécia, e o Golfo da Finlândia.
Share this content:


Publicar comentário