Como atenuar o choque energético
Uma subida abrupta e instável dos preços da energia, especialmente do gás natural, da eletricidade e do petróleo ressuscitaram um choque energético. São efeitos da combinação de vários fatores estruturais e geopolíticos e que, hoje, sentimos na carteira.
Um dos principais desencadeadores foi a guerra na Ucrânia, que expôs a forte dependência europeia do gás russo e provocou uma redução no fornecimento, gerando escassez e aumento de preços. Ao mesmo tempo, a economia global continua altamente dependente de combustíveis fósseis, o que torna o sistema energético vulnerável a choques externos, como conflitos, sanções ou decisões de produção.
Por outro lado, a transição para fontes de energia renovável, embora em curso, ainda não está plenamente consolidada. A produção de energia eólica e solar é intermitente e depende de condições naturais, comprometendo a estabilidade.
A recuperação económica após a pandemia de covid-19 também contribuiu para o agravamento da situação, ao provocar um aumento rápido da procura de energia e que a oferta não conseguiu acompanhar de imediato. Se adicionarmos os fatores climáticos, como secas ou temperaturas extremas, a equação torna-se ainda mais difícil e intensifica a pressão sobre o sistema.
Hoje, o conflito no Médio Oriente é o nó górdio que complica este choque energético e que se antevê prolongado.
O aumento generalizado dos preços, alimentando a inflação, elevando o custo de vida e pressionando as empresas com custos operacionais mais elevados veio para ficar ou, pelo menos, até que haja um acordo de paz real e efetivo na região e que, para já, não se vislumbra. O encerramento do estreito de Ormuz terá efeitos mundiais no médio prazo, já que afeta cerca de 20% das exportações globais de petróleo e 11% do comércio marítimo mundial.
António Costa Silva, especialista em energia e ex-ministro da Economia, alertou, durante um debate que decorreu na EY esta semana, que cada cinco dias de disrupção representam milhões de barris em falta na economia global, com impactos já visíveis em vários países, desde o aumento do preço dos fertilizantes até à instabilidade dos mercados. O antigo governante defendeu que mesmo que o conflito terminasse rapidamente, os efeitos prolongar‑se‑iam dois anos, em linha com o recente alerta da Comissão Europeia.
Assim, para Portugal, defendeu: “a prioridade deveria estar no reforço do abastecimento”, na gestão da procura e na aceleração da eletrificação”.
Para Agostinho Pereira de Miranda, especialista em Direito da Energia, este choque “poderá mesmo ser maior do que os de 1973 e 1979 juntos”, embora os seus efeitos ainda não estejam totalmente refletidos nos preços. Alertou que “os modelos contratuais do setor petrolífero não estão preparados” para este nível de volatilidade e referiu que, em Portugal, “existe uma sensação ilusória de conforto”, quando o país continua dependente do exterior, nomeadamente no abastecimento de diesel.
Também Duarte Cordeiro, ex‑ministro do Ambiente e da Ação Climática, referiu que Portugal aumentou o consumo de eletricidade e tornou‑se mais eficiente, mas continua fortemente dependente dos combustíveis fósseis, sobretudo para a mobilidade. Defendeu que tudo o que reforce a resiliência do sistema deve avançar a uma “velocidade supersónica” e que seria necessário aumentar o ritmo de instalação de renováveis para cumprir as metas do Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC).
Para Duarte Cordeiro, “reduzir a dependência de poucos fornecedores” é essencial num cenário onde a energia é cada vez mais usada como instrumento geopolítico.
Em suma, hoje estamos perante uma crise conjuntural, mas que reflete as já muitas fragilidades do sistema energético global, cuja transformação não acompanha ainda os desafios dos novos tempos geopolíticos. Pensamento estratégico sobre um sector tão determinante, precisa-se!
Share this content:

Publicar comentário