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Portugal, China e Estados Unidos

Portugal, China e Estados Unidos

À boleia da Cimeira Xi-Trump
Falou-se muito da Cimeira China-Estados Unidos, de Xi e de Trump. Das dicas desmedidas de Trump, “a marca usual da casa”.  E, de um Xi Jinping comedido, acrescentando alguns medias, comedido, mas “pragmático”, civilizado e afirmativo. Taiwan ponto-chave, logo, de entrada e o vincar de uma marca de estratégia de relacionamento e competição, entre os países, a norma da cooperação/negociação sobre o antagonismo e o conflito bélico.
Xi assumiu uma situação de paridade entre os dois países, mas a pedalar, calmamente, e, de forma convincente, na linha da frente.
Das relações de Portugal com estas duas superpotências, a comunicação social portuguesa nada disse, mas não teria sido descabido, até porque há muito a dizer, a analisar, a questionar, a esclarecer, onde até a União Europeia deve ser chamada a explicar-se.
Focar-nos-emos, assim, sobre alguns parâmetros que caracterizam os investimentos destes países em Portugal e das restrições grosseiras, impostas ao investimento da China, por exigências da União Europeia.
O stock de investimento em 2025
Em 2025, o stock de Investimento Direto Estrangeiro (IDE) dos EUA, em Portugal, somava 16,8 mil milhões de euros, correspondendo ao 3º maior investidor estrangeiro no País (atrás de Espanha e França). O stock de IDE da China, na mesma data, era de 14,7 mil milhões, 4º maior investidor.
Atendendo a que a tradição do investimento chinês em Portugal é bem recente e as relações políticas e económicas nada têm de comparativo ou até se nos detivermos nas  razões do começo do grande salto do investimento chinês (privatização da EDP, por falta de comparência, ou melhor dito, de solidariedade dos países da União Europeia e dos EUA), interessante será reflectir nesta aproximação de posições, nas diferenças qualitativas que são bastantes, sobretudo, no tocante ao impacto no tecido económico e, numa visão de futuro.
Perfil de investimento
As características relativas do investimento das duas potências, em termos de longevidade, liquidez, natureza de capital e impacto no tecido económico português, são muito díspares, o que pressupõe interesses estratégicos diferentes dos países investidores.
Assim, enquanto o investimento chinês aposta no longo prazo como são os casos da Energia (EDP, REN), Banca e seguros (BCP, Fidelidade), Saúde (Luz) e a grande fábrica de baterias de lítio em construção, em Sines, pelo grupo chinês CALB – o quarto maior produtor mundial do ramo (dos outros três maiores, o primeiro e o segundo são chineses e o terceiro sul-coreano), que irá funcionar como hub de abastecimento para a Europa –, o investimento dos EUA aposta na “economia digital” (Google, Cisco, Microsoft e Oracle), no software de automação industrial e residências e resorts de alto luxo e campos de golfe, tendo apostado também na Banca e seguros.
O investimento da China tem o principal foco nos sectores de infraestruturas, mobilidade eléctrica (automóvel) e serviços estruturados, o dos EUA no capital risco, privilegiando a liquidez e a rentabilidade de curto prazo, ou seja, o seu investimento incide, sobretudo, em fundos de investimento e acções de empresas a negociar em Bolsa, sendo a rentabilidade financeira de curto prazo, o foco predominante. Não é um investimento para ficar, mas de aplicações financeiras de tipo especulativo. Os investimentos americanos realizados por fundos e acções equivaliam, naquela data, a 78.5% do stock.
Na distribuição geográfica do investimento, no caso da China, Lisboa é predominante, mas, em Sines, avança a unidade de baterias, avaliada em 2 mil milhões de euros de investimento e tem surgido alguma apetência de investimento na Cova da Beira, sobretudo Covilhã e Fundão.
O investimento dos EUA situa-se também na Grande Lisboa, Tagus Parque (Oeiras), constituído na sua maioria por equipas de engenharia e no Norte, na automação industrial (Porto, Braga e V. N. Gaia). No Alentejo Litoral, situam-se as residências e resorts de alto luxo de marca americana. Mas a Cova da Beira também aparece como atrativa.
Até parece haver, aqui, uma certa disputa entre as duas potências.
Entraves e restrições ao investimento
Os investimentos da China, no interior do País, orientados para a inovação e indústria têm-se defrontado com a presença de múltiplos entraves, o que em nada favorece o seu desenvolvimento.
Tem havido um esforço significativo por parte das autarquias da Cova da Beira, Covilhã e Fundão, na atracção de capital do exterior. Nas deslocações à China, o trabalho de apoio do AICEP tem sido exemplar. A atracção das empresas chinesas recai no interesse em investir tendo em vista a penetração nos mercados europeus, pelos custos mais baixos e alguns incentivos eventuais.
Na Covilhã, está em linha de montagem um investimento do grupo Hua Guang Welding de 15 milhões de euros a arrancar em 2027, focado na produção de materiais de soldadura de alta tecnologia, com a criação inicial de 150 postos de trabalho e, em negociação, uma outra nova unidade fabril e centro de I&D, com outro grupo da China, focado na micro soldadura, também de alta tecnologia.
Os projectos têm sido desenhados com entidades da zona que integram os municípios, o parque industrial e tecnológico – Parkurbis, a UBI-Universidade da Beira Interior e associações empresariais. A integração da UBI foi importante na decisão chinesa da adesão aos projectos, pela garantia de mão de obra qualificada e disponibilidade de talentos.
Mas, nem tudo está a correr da melhor forma. Os projectos têm encontrado sérios entraves e restrições de Bruxelas (União Europeia) e, por isso, tem havido atrasos operacionais e burocráticos por alegação de motivos de segurança. E, no caso da UBI, a União Europeia impõe que, nos seus laboratórios, não possam ser desenvolvidas patentes industriais de tecnologias avançadas em cooperação com os chineses, sob pena de não terem acesso a incentivos comunitários. Uma situação, deveras escandalosa, puramente ideológica.
Até que ponto ainda se revela neste preconceito uma subordinação à estratégia dos EUA, “ganhar na secretaria”? A tentativa de cercear na secretaria o avanço tecnológico?! O medo da ultrapassagem. A lógica do progresso é, exactamente, o contrário. Cooperação para vencer os atrasos. Continua a mentalidade do míope.
É evidente que se inventam argumentos. Que estas restrições só se destinam a tecnologias críticas, cadeias de abastecimento ou infraestruturas sensíveis. As questões de espionagem em linha. Dizem alguns técnicos que, de perto, assistem este processo, que a fiscalização é mesmo a sério.
No entanto, a abertura ao investimento dos EUA é recheada de facilidades, apesar do tipo de investimento ser menos consistente, em termos de tecido económico, pois o padrão é do tipo do descrito antes, financeiro, pouco estruturante e de tesouraria.
As consequências deste comportamento da UE e, ao fim e ao cabo, do Governo português são desesperantes e antieconómicas. Só complicam e atrasam o desenvolvimento de regiões que poderiam incrementar outras, no mesmo sentido. Estamos perante um país a desaproveitar oportunidades, por miopia de visão, quando precisamos de mudar a economia de forma substancial e este tipo de investimento não aparece com frequência.  Isto é o que se chama um desperdício de fundo.

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