A diplomacia que faz crescer o negócio da fruta brasileira
Pode ultrapassar os mil euros por quilo. É a segunda especiaria mais cara do mundo, atrás apenas do açafrão, e chegou a superar o preço da prata. “Esta espécie é a vanilla phaeantha ou bahiana. Traz notas mais amadeiradas, de amêndoas”, descreve Fernando Souza Rocha, um dos investigadores da Embrapa Cerrados, em Planaltina, no nordeste do Distrito Federal brasileiro, em frente a uma fileira de plantas de baunilha nativa, altamente procuradas pela alta gastronomia.
É ali, numa das 43 unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), instituição científica do mundo tropical, que são desenvolvidas tecnologias e soluções para uma agricultura sustentável. E que se criam ferramentas de diplomacia.
De país importador a um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, o Brasil faturou 1,45 mil milhões de dólares (cerca de 1,24 mil milhões de euros) no ano passado só no setor da fruticultura. Um recorde – o terceiro consecutivo –, que cimenta uma reputação internacional.
Além do desenvolvimento das baunilhas brasileiras, várias equipas trabalham naquele complexo de laboratórios ao ar livre da Embrapa do Cerrado, o segundo maior bioma do país em área logo atrás da Amazónia, com diferentes variedades de pitaya, baru e açaí, entre outros.
Hoje, o Brasil é o terceiro maior produtor de frutas em volume, depois da China e da Índia, com a produção paulista a pesar nos números. O setor emprega cinco milhões de pessoas no país.
Lula agrícola
Por trás do sucesso está a diplomacia agroeconómica entusiasta do Governo de Lula da Silva, que em 2009 criou a figura do adido agrícola. Tem projetado o agronegócio brasileiro no plano internacional, tendo já aberto mais de 600 mercados desde 2023.
Pedro Neto, responsável pela área do agronegócio da ApexBrasil, destaca o “avanço rápido” do comércio de gergelim com a China, com o Brasil a tornar-se o terceiro maior exportador da semente para aquele mercado em apenas três meses. A partir da sede da agência, em Brasília, o responsável sublinhou a importância de se “aumentar o uso económico de frutas brasileiras”, dando o exemplo do baru, fruto de uma árvore nativa do Cerrado brasileiro que já entrou no mercado europeu. Este e outros frutos, ainda com baixos níveis de produção e menos conhecidos, contam com o papel Central do Cerrado, que reúne cooperativas de produtos nativos do bioma.
Portugal é o sexto maior destino de fruta brasileira, mercado onde o Brasil faturou 52,9 milhões de dólares (45,5 milhões de euros) em 2025. Mas o maior cliente são os Países Baixos, para onde seguiram 559 mil toneladas no ano passado, sobretudo manda, limão e melão. E, também, figo roxo de Valinhos.
É na Campal Frutas e Hortaliças, empresa familiar com mais de 60 anos, que é produzida, ao longo de 170 hectares, aquela que é uma das variedades de figo mais conhecidas e cultivadas no Brasil. “No ano passado, 37,8% do volume de figos foi exportado por nós”, conta Rafael Fabiano, diretor comercial de uma das várias produtoras e exportadoras localizadas na região, conhecida como a capital do figo roxo. A Campal cultiva ainda goiaba, carambola e atemoia, e entrou também no negócio da compra de manga e abacate para exportação. O valor agregado do figo é, naturalmente, superior: mais de três vezes o da manga, de acordo com números avançados pelo diretor-geral da Campal, Rodrigo Fabiano. Para Portugal, exportam cerca de 600 toneladas de fruta por ano.
De acordo com Rafael Fabiano, já da quarta geração da família na empresa, a Campal é a maior exportadora em valor dos aeroportos de Guarulhos e Viracopos, dois pesos-pesados do transporte aéreo de carga. Em março, Viracopos, aeroporto internacional em Campinas, tornou pública “uma operação inédita”: a exportação de frutas e legumes num voo direto para a Ilha do Sal, em Cabo Verde, evitando pela primeira vez escalas em aeroportos europeus. No cargueiro seguiram cinco toneladas de produtos, e o figo roxo faz parte da lista que o aeroporto internacional fez questão de divulgar.
Para a safra 2025/2026, a Prefeitura de Valinhos prevê 2,5 milhões de caixas de 1,6 quilos. São cerca de quatro mil toneladas. Naquela região, a figueira produz ao longo de sete meses, uma vantagem competitiva ultrapassada pela Turquia, o maior exportador de figos do mundo.
Entre os muitos exemplos de empresas familiares que formam o setor da fruticultura está também a CitrusTree, localizada em Mogi Mirim, no interior de São Paulo. Graziele Tagliari é sócia-proprietária da “empresa pioneira na exportação” de limão tahiti (lima em Portugal). Fundada pelo seu bisavô em 1970, começou por dedicar-se ao algodão e milho, transitando para a exportação de lima em exclusivo, contando com 450 hectares, entre produtores parceiros.
É o terceiro fruto mais exportado pelo Brasil. Segundo Graziele, há um aumento claro da concorrência. “O mercado europeu está difícil, não vem sendo animador”, explica, acrescentando que o “Brasil concorre com ele mesmo”. Lá fora, Índia, México, China e Argentina são os principais concorrentes. Mas também o Vietname entrou na corrida e já vende à Europa. De acordo com a empresária brasileira de origem italiana, é na época da Copa do Mundo (campeonato mundial de futebol) que as vendas tipicamente disparam.
No ano passado, as exportações de lima e limão (siciliano) ultrapassaram os 199 milhões de dólares, de acordo com a Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas).
Mirtilo desponta
Não é uma planta nativa do Brasil, mas há um crescente interesse de produtores pelo mirtilo – de clima frio e temperado -, movidos pelo alto valor agregado do fruto. Em 2019, Leandra e Evaldo Alvarenga trocaram a cidade pelo campo e, numa propriedade em Sobradinho, Brasília, nasceu a Cerrado Blue. Investiram em formação em agropecuária e agronegócio, e apostaram também em turismo rural associado à produção de mirtilo. Segundo Evaldo, as variedades de clima quente chegaram ao Brasil há 15 anos, do Peru, o maior exportador mundial de mirtilos. No Rio Grande do Sul, a realidade é outra. Grande parte da área de cultivo de mirtilo encontra-se naquele estado brasileiro. Foi pela Embrapa que os primeiros ensaios com mirtilo no Brasil foram feitos, em 1983, pela Embrapa Clima Temperado (Pelotas – RS), com a introdução da coleção de cultivares de baixa exigência em frio, oriundas da Universidade da Flórida.
“Ninguém tem a quantidade de produtos para oferecer ao mundo que o Brasil tem”, afirmou Lula da Silva na ‘Feira Brasil na Mesa’, que aconteceu na Embrapa Cerrados, Planaltina, onde o JE esteve a convite da Apex. A ideia partiu do presidente brasileiro, que desafiou a Embrapa a organizar uma feira de promoção da diversidade alimentar do país: 150 alimentos, 50 nativos.
Sobre o acordo Mercosul-UE, Lula da Silva afirmou que o país dispõe de “540 produtos na bandeja para entregar aos europeus”. “Não queremos destruir os produtos deles. Queremos uma política de complementaridade. Estou muito otimista (…) Quais mais sofisticados formos, mais mercado ganhamos e podemos disputar os mercados mais sofisticados. Temos tecnologia, mão-de-obra e expertise”, sublinhou.
Share this content:



Publicar comentário