BCE prepara-se para voltar a subir juros pela primeira vez em quase três anos
O Banco Central Europeu (BCE) deverá esta quinta-feira pôr fim a uma série de reuniões sem mexidas nos juros e voltar a subir as taxas de referência após um ciclo de oito descidas entre meados de 2024 e de 2025. O choque energético decorrente da guerra no Médio Oriente persiste, pressionando novamente os preços na zona euro, e, apesar dos sinais de fraqueza na atividade, o mercado ainda espera nova subida até final do ano.
Com os juros diretores atualmente em 2,15%, o BCE já na última reunião de política monetária, em abril, havia sinalizado a possibilidade de subidas – um cenário, de resto, debatido no seio do Conselho de Governadores e que vários banqueiros centrais de Estados-membros admitiram que apoiariam à altura. Desde então, a inflação saltou de 2,6% em março para 3,2% em maio, o valor mais alto desde setembro de 2023, empurrando o banco para a inversão de rumo.
A análise da Pantheon Macro destaca precisamente a subida da inflação nominal, mas também do subindicador referente aos serviços, que chegou a 3,5% em maio depois de 3% em abril, dos bens industriais não-energéticos, que também subiram 0,1 pontos percentuais (pp), e sobretudo da inflação subjacente, que, com 2,5% em maio, está 0,3 pp acima das projeções do BCE de março, para argumentar que “estes sinais bastam para apoiar uma subida de 25 pontos base (pb)”.
Assim, a autoridade monetária preferirá agir de forma possivelmente prematura face ao risco de se atrasar novamente face a uma inflação que tem provado ser mais estrutural do que inicialmente se temia, dada a duração do choque energético. Mais: mantendo-se o atual cenário, o think-tank aposta em nova subida já em julho, o que deixaria os juros “no limite superior do intervalo considerado como neutro”, mas abstendo-se de novos incrementos.
Por sua vez, Martin Wolburg, economista sénior da Generali Investments, vê na decisão desta semana uma tentativa sobretudo de manter a credibilidade do banco central, mas sem precipitar efeitos de maior na economia real.
“A subida de junho servirá sobretudo para manter a credibilidade anti-inflação do BCE e ajudar a ancorar as expectativas. Mas, com a esperança por um acordo no conflito com o Irão a esmorecer e os riscos de estagflação ainda elevados, Lagarde quererá manter a porta aberta a mais aperto, caso seja necessário”, lê-se numa nota da Generali.
Já a Aberdeen Investments coloca o foco no enquadramento que será dado pela comunicação do banco à subida, antecipando um posicionamento ‘dovish’ apesar da subida. Para o economista Felix Feather, é quase certo que não haverá sinais quanto ao rumo dos juros para lá de junho, com Lagarde a, na melhor das hipóteses, definir alguns pontos críticos relacionados com expectativas de inflação ou efeitos de segunda ordem.
“Até agora, as pressões inflacionárias permanecem concentradas na energia, com pouca evidência de efeitos de segunda ordem. Os seguidores de salários e inquéritos continuam a mostrar sinais escassos de exigências salariais crescentes, o que deve limitar a transmissão da inflação nos serviços”, escreve. Como tal, “consideramos que a subida de junho pode ser a última do ano, mas os riscos estão claramente inclinados para cima, dado que sinais de efeitos de segunda ordem ou novo choque energético podem obrigar o BCE a responder de forma mais agressiva”.
Para a Gavekal, a quase confirmada subida desta semana será “um seguro contra potenciais efeitos de segunda ordem”, em linha com a defesa da credibilidade do banco sublinhada por Martin Wolburg. O think-tank argumenta que os dados mostram que “o risco de um processo inflacionário alargado permanece limitado”, pelo que a decisão de junho passa mais pelo sinal dado ao mercado. Contudo, é possível que o BCE mantenha o tom mais ‘hawkish’ depois da reunião, sobretudo dado que a fragmentação financeira na zona euro é baixa e as políticas orçamentais parecem finalmente minimamente alinhadas com a monetária.
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