Portugal desperdiça 25 milhões de euros por ano em nutrientes e matéria orgânica. Agricultores e contribuintes pagam a fatura
O agravamento do conflito no Médio Oriente, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irão, está a ter efeitos diretos na agricultura europeia — e Portugal surge como um dos países mais vulneráveis. A escalada fez disparar o preço dos fertilizantes de síntese para níveis que não se viam desde 2022, ao mesmo tempo que o país continua a depender fortemente de importações: cerca de 700 mil toneladas por ano, num total de 335 milhões de euros.
Em sentido inverso, milhões de euros em recursos potencialmente reutilizáveis na agricultura continuam a ser desperdiçados. Segundo dados analisados pela associação ambiental ZERO, cerca de 25 milhões de euros anuais em nutrientes e matéria orgânica acabam em aterro ou incineração, em vez de regressarem aos solos.
A organização alerta que esta combinação — dependência externa e desperdício interno — expõe fragilidades estruturais e compromete a soberania alimentar do país.
Fertilizantes sob pressão global
Os fertilizantes azotados, essenciais para a produção agrícola intensiva, estão na linha da frente do choque geopolítico. Mais de um terço da ureia mundial — o principal adubo azotado — circula através do Estreito de Ormuz, uma das zonas mais sensíveis do atual conflito.
A produção destes fertilizantes depende fortemente de energia, através do processo Haber-Bosch, responsável por consumir entre 1% e 2% da energia mundial. Como consequência, os preços seguem de perto a volatilidade energética. Desde o início da guerra, o preço da ureia aumentou cerca de 80%, ultrapassando os 850 dólares por tonelada, o valor mais elevado desde 2022. O Banco Mundial antecipa ainda uma subida adicional de 31% em 2026.
A concentração da produção agrava o cenário. Marrocos detém cerca de 70% das reservas mundiais de fosfatos, enquanto mais de 40% da produção de fertilizantes azotados está concentrada na China, Rússia, Arábia Saudita e Qatar. Globalmente, apenas dez empresas controlam cerca de 39% do mercado.
Dependência crescente e custos públicos
Portugal não escapa a esta pressão. Em 2025, importou cerca de 700 mil toneladas de adubos, maioritariamente minerais ou químicos (85%), num total de 335 milhões de euros. Desde 2005, as importações cresceram mais de 40% em volume e mais de 260% em valor.
O aumento dos custos levou o Governo a avançar com um apoio extraordinário de 20 milhões de euros ao setor agrícola. Ainda assim, a ZERO critica a orientação das medidas, considerando que “está sobretudo direcionada para a manutenção da dependência de inputs da agricultura industrial e a grande propriedade rural”.
Milhões de euros desperdiçados em resíduos
Enquanto o país paga cada vez mais por fertilizantes importados, continua a desperdiçar recursos internos. Em 2024, cerca de 1,8 milhões de toneladas de resíduos orgânicos não foram valorizadas e mais de 1 milhão de toneladas de resíduos indiferenciados foram diretamente para aterro sem pré-tratamento e em incumprimento da Diretiva Aterros (Diretiva (UE) 2018/850).
De acordo com a análise da ZERO, a partir dos dados dos Sistemas de Gestão de Resíduos Urbanos (SGRU), os macronutrientes recuperáveis dos biorresíduos — azoto, fósforo e potássio — têm um valor de mercado de cerca de 22 milhões de euros por ano. Incluindo a matéria orgânica, o desperdício total ascende a 25 milhões de euros anuais.
Além disso, os efluentes da suinicultura e bovinicultura intensivas poderiam suprir até 50% das necessidades de azoto e fósforo das culturas agrícolas e florestais, mas continuam a ser tratados sobretudo como passivo ambiental em várias regiões.
Economia circular como resposta estratégica
Perante este cenário, a ZERO defende uma mudança estrutural baseada na economia circular e na gestão eficiente de nutrientes. Entre as propostas estão o reforço da recolha seletiva de biorresíduos, a promoção da compostagem doméstica e comunitária e o incentivo à valorização agrícola de resíduos orgânicos e efluentes pecuários, em linha com as recomendações estruturais da Comissão Europeia no recente “Plano de Ação para os Adubos”
A associação propõe também o desenvolvimento de um modelo agroecológico, com maior proximidade entre produção e consumo, valorização de recursos locais e redução da dependência de fertilizantes sintéticos.
A atual crise, sublinha a ZERO, deve ser encarada como uma oportunidade para reforçar a resiliência do sistema agrícola nacional, reduzindo vulnerabilidades externas e aproveitando recursos que hoje continuam a ser desperdiçados.
CAIXA
Como inverter a situação?
Apostar na prevenção de biorresíduos, promovendo uma forte sensibilização dos cidadãos para a adoção de comportamentos de consumo responsável que previnam desperdício de recursos, nomeadamente os alimentares, e fomento de parcerias entre empresas, entidades públicas e outras entidades do setor social, para garantir o encaminhamento (doação) de excedentes alimentares em estado apto para o consumo;
Impor metas progressivas junto dos SGRU para a recolha seletiva porta-a-porta de orgânicos, inicialmente mais exigentes para os grandes produtores de resíduos (comércio, indústria e serviços);
Criar um regime de exceção para possibilitar que os Municípios promovam, por iniciativa própria e por acordo com os SGRU, a reciclagem de orgânicos com recurso a pequenas centrais de compostagem ou de vermicompostagem (capacidade de processamento a definir), para fomentar a aplicação de composto em hortas comunitárias e em bancos de terras agrícolas municipais, que adotem o modo de produção biológico;
Promover ativamente a compostagem comunitária e doméstica, em particular junto dos 45% de cidadãos que vivem em moradias, por forma a reduzir uma parte significativa dos custos de recolha e tratamento que são suportados pelos Municípios e cidadãos;
Assegurar a primazia da valorização agrícola e a utilização racional e ordenada de soluções de valorização orgânica e energética dos efluentes pecuários e agroindustriais, em consonância com a Estratégia Nacional para os Efluentes Pecuários e AgroIndustriais (ENEAPAI);
Apoiar a constituição e consolidação de um modelo produtivo alternativo agroecológico em Portugal (Resolução da Assembleia da República n.º 142/2017), nomeadamente através do financiamento da investigação e de estruturas de apoio, como o Centro de Competências para a Agricultura Familiar e Agroecologia (CeCAFA), assegurando:
Incentivos a uma agricultura de proximidade que permita o aproveitamento eficiente dos nutrientes de origem urbana, incluindo as lamas de depuração e de águas residuais urbanas e que favoreça cadeias curtas agroalimentares;
Serviços de extensão rural, capazes acompanhar as realidades agrícolas, agregar e disseminar conhecimentos e as melhores práticas agroecológicas disponíveis;
Medidas de apoio para a gestão racional de nutrientes, assentes na substituição de fatores de produção por recursos naturais, incluindo o cultivo de culturas fixadoras de azoto.
Fonte: Zero
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