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Portugal entra no primeiro mapa soberano da AWS

Portugal entra no primeiro mapa soberano da AWS

Portugal foi escolhido pela Amazon Web Services (AWS) para receber uma das três primeiras Local Zones da European Sovereign Cloud, a nuvem europeia disponibilizada pela gigante norte-americana. As outras serão na Bélgica e nos Países Baixos. O investimento global será da ordem dos 7,8 mil milhões de euros, até 2040.
“Decidimos investir em Portugal porque vimos que há uma procura por parte dos organismos portugueses e das empresas portuguesas para ter uma infraestrutura local como a Local Zone”, afirma ao Jornal Económico (JE)
André Rodrigues, Head of Technology, Software & Tech Companies da AWS para o Sul da Europa. “Tipicamente, na AWS, 90% daquilo que nós fazemos, do nosso investimento, tem a ver com aquilo que os nossos clientes nos dizem diretamente”, reforça.
Mas não foi só isso. Há características que tornam Portugal atrativo: geografia e energia. “Está aqui numa situação ou num ponto geográfico bastante interessante. Não foi só para os Descobrimentos, há 500 anos atrás, mas agora para a corrida tecnológica, para a corrida à inteligência artificial”, diz André Rodrigues. “O facto de nós estarmos aqui na interseção entre os Estados Unidos, a Europa e a África, onde amaram muitos dos cabos transatlânticos, as autoestradas da informação, coloca Portugal na pole position”.
São 11 os sistemas internacionais que ligam ou deverão ligar Portugal a cinco continentes: Europa, África, América, Ásia e Oceânia. Dez estão em serviço ou já têm a amarração concluída. Para África seguem o Africa Coast to Europe (ACE), o MainOne, o West Africa Cable System (WACS), o SAT-3/WASC e o Equiano. O 2Africa liga a Europa a África e prolonga-se ao Médio Oriente e à Ásia, enquanto o Europe India Gateway (EIG) estabelece uma rota para o
Médio Oriente e a Índia. Na Europa, o Tata TGN-Western Europe une Portugal a Espanha e ao Reino Unido.
Nas Américas, o EllaLink liga Sines ao Brasil e o Nuvem, cuja amarração em Sines foi concluída em julho de 2026, segue para os Estados Unidos através dos Açores e das Bermudas. Entre os projetos anunciados e ainda em desenvolvimento está o Medusa, que partirá de Carcavelos para ligar o Sul da Europa ao Norte de África e ao Mediterrâneo oriental.
Juntam-se ligações nacionais como o Bugio, Sagres, o Anel Continente-Açores-Madeira e o Olisipo, projetado para unir Sines a Lisboa. A proximidade entre pontos de amarração, redes terrestres, centros de dados e cloud reduz latência e cria alternativas, redundâncias.
Vantagem renovável
A energia é a segunda vantagem competitiva. Para os centros de dados, o acesso a eletricidade é uma condição para a instalação. A energia ser renovável é também determinante para a tecnológica norte-americana.
“O acesso que nós temos a energia e, principalmente, a energia renovável, é algo bastante importante para a Amazon e para AWS”, afirma Rodrigues.
A Amazon é fundadora e signatária do Climate Pledge, antecipando as metas de Paris em 10 anos. Em 2040 querem ser carbono-neutros e ter 100% das operações e dos data centers todos da AWS operados com energia renovável.
No ano passado, a produção reno vável abasteceu 68% do consumo de eletricidade no mercado português, segundo a Redes Energéticas Nacionais. No primeiro semestre de 2026, o peso aumentou para 71%. A hidroelétrica representou
29%, a eólica 26%, a solar 11%, e a biomassa 5%. No final de 2025, Portugal tinha 21,9 gigawatts de capacidade renovável instalada.
“Portugal compara extremamente bem com todos os países congéneres que nós temos aqui na Europa”, aponta o responsável por Tecnologia, Software e Empresas Tecnológicas da AWS para o Sul da Europa.
Exemplo é o contrato de compra de energia (PPA, na sigla inglesa) assinado com a Iberdrola em 2025, que prevê que a AWS compre 219 MW de energia produzida no futuro Complexo Eólico do Tâmega. É um investimento de 350
milhões de euros, localizado em Cabeceiras de Basto e será o maior parque eólico de Portugal, com uma capacidade total de 274 MW, que estará ligado ao sistema hidroelétrico do Tâmega, garantindo maior estabilidade.
A terceira vantagem é o mercado. A escolha não faria sentido apenas com geografia e eletricidade se não existissem clientes, parceiros e talento. “Portugal é visto dentro da AWS e da Amazon de uma forma muito positiva”, diz André
Rodrigues.
Considera que as empresas portuguesas estão alinhadas com as congéneres europeias na adoção de tecnologia, embora a utilização da inteligência artificial permaneça, em muitos casos, superficial. Mas destaca um caso a seguir:
“Há aqui um nicho que é um círculo virtuoso que nós temos com o ecossistema das startups, que, na realidade, utiliza [inteligência artificial] de uma forma para a qual nós temos de olhar mais”, diz.
Resposta local
As Local Zones respondem a dois requisitos que ganharam peso com o aprofundamento dos processos de digitalização, com a ascensão de soluções de inteligência artificial, mas também com as tensões geopolíticas e a reafirmação das soberanias. Os objetivos são reduzir a distância entre as aplicações e os utilizadores e manter
determinados dados no país. “Há determinados workloads e determinadas aplicações que requerem uma latência mais baixa e, por isso, é importante termos os centros de dados mais perto”, explica o líder da AWS em Portugal.
Depois, há empresas e entidades públicas que querem beneficiar da escala da cloud, mas sem perder controlo
sobre a localização dos dados, a continuidade das operações e o cumprimento das regras europeias.
“Esta localização vem colmatar essa necessidade de não abdicar da inovação, mas, ao mesmo tempo, garantir que os dados estão locais e em território português ou europeu”, sublinha Rodrigues.
A infraestrutura da AWS está desenhada com 39 regiões, e em expansão. Cada uma tem um mínimo de três availabily zones, cada uma constituída por pelo menos um data center, que é onde residem os mais de 200 serviços que a tecnológica oferece. Uma local zone é uma infraestrutura mais pequena. “Tem serviços de computação, de armazenamento, inteligência artificial, segurança de rede, mas é um subset mais pequeno, que procura não tanto dar todo o portefólio e todos os serviços, mas sim aproximá-los das populações, das organizações, das empresas que precisam de uma destas duas questões: ou latências mais baixas ou ter os dados locais”, explica.
Assim, a Local Zone portuguesa, que ficará em Lisboa, não será uma região completa, mas uma extensão local da região soberana instalada no estado alemão de Brandemburgo. Ficará ligada à nuvem soberana europeia, desenhada para operar de forma independente das restantes regiões da AWS. Mas aproximará clientes portugueses serviços de computação, armazenamento, redes e inteligência artificial.

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