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Construção. Falta de trabalhadores qualificados pode “comprometer velocidade de execução dos investimentos”

Construção. Falta de trabalhadores qualificados pode “comprometer velocidade de execução dos investimentos”

O presidente da AICCOPN – Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas, Ricardo Gomes, diz ao Jornal Económico que ainda há “entre 80 e 90 mil postos de trabalho por preencher” no setor, “abrangendo praticamente todas as especialidades”. E defende que a “via verde”, que serve para acelerar a entrada legal de imigrantes no país, “apesar de relevante, não resolve, por si só, um problema estrutural”.
A falta de trabalhadores continua a ser grave? Quais são as dificuldades?
Sim, a escassez de mão de obra continua a ser o principal constrangimento ao crescimento do setor da construção.
Quantas vagas há atualmente por preencher?
Estimamos que existam atualmente entre 80 e 90 mil postos de trabalho por preencher, abrangendo praticamente todas as especialidades, desde serventes, pedreiros, carpinteiros e armadores, até eletricistas, canalizadores, soldadores, operadores de máquinas, encarregados e técnicos especializados. Esta realidade resulta de vários fatores: envelhecimento da força de trabalho, reduzida entrada de jovens nas profissões da construção, aumento da procura provocado pelo elevado volume de investimento público e privado, e forte concorrência internacional por trabalhadores qualificados.
A dificuldade está apenas na falta de candidatos? Ou também na falta de competências?
O problema é duplo. Existe escassez de candidatos, mas também um défice significativo de qualificações técnicas em diversas profissões. A transformação tecnológica do setor exige hoje trabalhadores mais qualificados, preparados para utilizar novos materiais, processos construtivos industrializados, tecnologias digitais e soluções sustentáveis. Por isso, a formação profissional assume um papel absolutamente estratégico. A AICCOPN, através do CICCOPN, tem vindo a reforçar significativamente a sua capacidade formativa, desenvolvendo programas dirigidos quer à qualificação de novos profissionais, quer à requalificação de trabalhadores, incluindo cidadãos estrangeiros integrados através do Protocolo para a Migração Laboral Regulada.
Que impacto tem esta escassez de trabalhadores no setor? Limita o crescimento?
Sem dúvida. A falta de mão de obra condiciona a capacidade de resposta das empresas, aumenta os prazos de execução das obras, eleva custos e limita a capacidade do setor de acompanhar o volume de investimento atualmente em curso. Estamos perante um ciclo histórico de investimento em habitação, infraestruturas ferroviárias, energia, equipamentos públicos e execução do PRR. Se não conseguirmos aumentar rapidamente a disponibilidade de recursos humanos qualificados, existe o risco de comprometer a velocidade de execução destes investimentos, com impactos na competitividade da economia portuguesa.
Os salários vão continuar a aumentar para atrair trabalhadores?
A valorização salarial é uma tendência que deverá manter-se. Aliás, o setor tem vindo a aumentar de forma consistente as remunerações nos últimos anos. Mas importa reconhecer que a questão não se resolve apenas através dos salários. É igualmente necessário valorizar socialmente estas profissões, melhorar as condições de trabalho, investir na formação e criar percursos profissionais atrativos para os jovens.
Tem sido mais difícil contratar trabalhadores estrangeiros? Como está a correr a “Via Verde”?
A criação do Protocolo para a Migração Laboral Regulada constituiu um passo muito importante e correspondeu a uma proposta que a AICCOPN sempre defendeu. A Associação tem desempenhado um papel ativo no apoio às empresas associadas, acompanhando os processos desde a sua instrução até à articulação com as entidades públicas competentes. Os resultados são positivos e o número de processos tem vindo a crescer de forma consistente. Contudo, importa reconhecer que este mecanismo, apesar de relevante, não resolve, por si só, um problema estrutural. Continua a ser necessário aumentar a capacidade de resposta dos serviços administrativos, acelerar procedimentos e complementar este instrumento com políticas de formação, qualificação e valorização das profissões da construção.
Que medidas poderiam ser tomadas para atenuar o problema da falta de trabalhadores?
A resposta deve assentar numa estratégia integrada. A AICCOPN considera prioritárias várias medidas: reforçar o investimento na formação profissional inicial e contínua; aproximar os jovens das profissões da construção; aumentar a capacidade de requalificação de adultos; consolidar e agilizar os mecanismos de imigração laboral regulada; promover o reconhecimento mais célere de competências profissionais; incentivar a industrialização, a digitalização e a inovação dos processos construtivos; continuar a valorizar as carreiras e a imagem do setor. Nenhuma destas medidas, isoladamente, resolverá o problema. É necessária uma política consistente de médio e longo prazo.
Como está a correr o PRR? Estão a conseguir trabalhadores para as obras críticas?
As empresas têm feito um enorme esforço para responder às exigências do PRR e aos restantes investimentos estruturantes do país.
A capacidade técnica das empresas existe, sendo um desafio a disponibilidade de recursos humanos em número suficiente. Por isso, continuamos a defender que a execução do PRR deve ser acompanhada por políticas públicas que garantam simultaneamente maior capacidade de recrutamento, reforço da formação profissional e mecanismos eficazes de imigração regulada, permitindo às empresas responder aos desafios colocados por este ciclo excecional de investimento.

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