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Entrada do Estado na REN dá influência mas não baixa diretamente tarifas, diz antigo presidente ERSE

Entrada do Estado na REN dá influência mas não baixa diretamente tarifas, diz antigo presidente ERSE

A entrada do Estado no capital da REN, através de uma participação de 13,7%, poderá reforçar a influência sobre decisões estratégicas, mas não lhe dará o controlo da empresa e não baixará diretamente as tarifas, considera Vítor Santos.
O antigo presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) entende que a aquisição da posição da Pontegadea, empresa da família Ortega, dona da Zara, pela Parpública permite ao Estado regressar à estrutura acionista da REN como acionista de referência, embora sem deter o controlo da gestão.
“Poderá dar-lhe maior capacidade para acompanhar e influenciar algumas decisões estratégicas e, eventualmente, representação nos órgãos sociais”, afirmou Vítor Santos à Lusa. Com esta participação, poderá nomear um administrador (não executivo), num total de 15.
A chinesa State Grid, com 25% do capital da REN, mantém-se o maior acionista, percentagem que é o limite máximo de direitos de voto que um acionista pode exercer.
Para Vítor Santos, a influência adicional do Estado deve ser analisada tendo em conta o quadro regulatório a que a REN está sujeita.
A empresa gere infraestruturas concessionadas, estando sujeita a certificação como operador da rede e tem os seus planos de investimento sujeitos à intervenção da ERSE e da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) e à aprovação do Governo.
“Por isso, a questão essencial é perceber que objetivos adicionais pretende o Estado alcançar enquanto acionista que não consiga atingir através da política energética, das concessões e da regulação”, sustentou o responsável que foi presidente da ERSE entre 2007 e 2017.
O também antigo secretário de Estado da Indústria e Energia, no Governo de António Guterres, considera que o atual contexto energético e geopolítico pode justificar uma maior presença do Estado no capital de infraestruturas estratégicas, destacando a importância crescente da segurança energética, da resiliência das infraestruturas críticas e da autonomia estratégica.
“Pode, por isso, haver razões estratégicas para o Estado querer estar presente no capital da REN”, afirmou.
Identifica também riscos, nomeadamente a necessidade de separar claramente os diferentes papéis do Estado enquanto acionista, concedente e responsável pela política energética, bem como o custo de oportunidade dos recursos públicos utilizados na aquisição.
“Assim, a questão não deve ser colocada em termos de propriedade pública versus privada, mas sim em termos dos benefícios concretos que esta participação proporciona relativamente ao seu custo”, defendeu.
Quanto a um eventual impacto da entrada do Estado nas tarifas de eletricidade ou gás, Vítor Santos não estabelece uma relação direta entre a operação e uma descida dos preços.
“Não vejo uma relação direta entre a aquisição dos 13,7% da REN pelo Estado e uma redução das tarifas”, afirmou.
As receitas das atividades reguladas da REN, os investimentos reconhecidos e a remuneração dos ativos são definidos através dos mecanismos regulatórios da ERSE e não pelos acionistas, lembrou.
“Poderão existir efeitos indiretos se a nova estrutura acionista contribuir para investimentos mais eficientes ou para menores custos de financiamento. Mas esses efeitos teriam de ser demonstrados”, acrescentou.
O primeiro-ministro voltou a afirmar hoje que todos os elementos relativos à reentrada do Estado no capital da REN serão disponibilizados para “escrutínio do país” e admitiu que a operação poderá contribuir, a médio e longo prazo, para diminuir o custo da eletricidade.
Em declarações aos jornalistas em Oeiras, Luís Montenegro disse que a operação, que está ainda condicionada à concessão de visto do Tribunal de Contas, terá de respeitar as regras aplicáveis às empresas cotadas, sublinhando que o objetivo é reforçar a capacidade produtiva, a distribuição e a integração de renováveis, bem como a autonomia estratégica, permitindo otimizar a rede e refletir essa melhoria nas condições de acesso.
O primeiro-ministro afirmou que a conjugação destes fatores a “médio e longo prazo terá um efeito sobre o preço”.
Para Vítor Santos, o setor energético português mudou significativamente desde a privatização da REN, em 2014, sobretudo devido ao regresso da segurança energética ao centro da política europeia e à crescente importância das redes para integrar energias renováveis, armazenamento, interligações, veículos elétricos e novos grandes consumidores.
Na sua avaliação, “estas mudanças justificam que se reavalie a importância estratégica da presença do Estado na REN”, considerou.
Ainda assim, Vítor Santos sublinha que essa evolução não permite concluir que a aquisição dos 13,7% seja necessariamente a melhor solução, defendendo que essa avaliação depende do custo da operação, que não foi revelado, mas a preço de mercado rondará os 320 milhões de euros, dos direitos de governação associados e dos benefícios concretos esperados pelo Estado.
“Em síntese, a REN é indiscutivelmente uma empresa estratégica, mas tal não significa que uma empresa nestas circunstâncias tenha que ter necessariamente o Estado como seu acionista”, afirmou.

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