Mercados: Europa prepara-se para uma semana dominada pelo BCE, petróleo e inflação dos EUA
As bolsas europeias deverão iniciar a sessão de terça-feira com os investidores a digerirem a subida do petróleo e o agravamento das tensões entre os Estados Unidos e o Irão, num dia em que Wall Street regressa à negociação depois do feriado de Labor Day e em que a atenção permanece centrada na decisão de política monetária do Banco Central Europeu (BCE), na quinta-feira.
O ambiente deverá continuar condicionado pela evolução do petróleo, depois de o Brent ter aproximado-se dos 98 dólares por barril, perante o risco de perturbações prolongadas no Estreito de Ormuz. Na segunda-feira, o Brent chegou a subir cerca de 1,3%, para 97,5 dólares, com os ataques norte-americanos a navios iranianos e as ameaças de Teerão a aumentarem os receios sobre o abastecimento mundial. Teerão avisou esta segunda-feira que as instalações das empresas energéticas americanas no Médio Oriente estão “expostas”.
Petróleo é o principal risco para terça-feira
O comportamento do petróleo deverá continuar a ser um dos principais indicadores para os mercados.
O Brent negociava perto dos 98 dólares, depois de novos ataques entre os EUA e o Irão terem aumentado os receios de interrupções no Estreito de Ormuz. Teerão ameaçou criar uma nova zona de restrição junto ao estreito, enquanto Washington intensificou os ataques a navios ligados ao Irão.
Para as bolsas, a subida do crude tem um efeito ambivalente: beneficia diretamente as petrolíferas, mas aumenta os custos das empresas e ameaça prolongar a inflação, tornando mais difícil uma futura flexibilização monetária.
É particularmente relevante para a Europa porque o choque energético surge num momento em que o BCE já está a preparar uma nova subida das taxas.
Brent acima dos 100 dólares seria, neste contexto, um nível particularmente sensível para os mercados, por poder reforçar a perceção de que o choque energético deixou de ser temporário.
Wall Street regressa à negociação
Depois do encerramento de segunda-feira devido ao Labor Day, os mercados norte-americanos reabrem terça-feira.
A sessão deverá permitir aos investidores norte-americanos reagir a vários acontecimentos acumulados durante o fim de semana e segunda-feira, incluindo a subida do petróleo, as tensões no Médio Oriente e a alteração das expectativas para as taxas da Fed.
O mercado norte-americano chega a esta semana depois de um relatório de emprego de agosto mais forte do que o esperado. Foram criados 162 mil postos de trabalho, contra uma previsão de 53 mil, aumentando a probabilidade atribuída pelos mercados a uma subida das taxas da Fed em setembro para cerca de 60%.
Por isso, a reabertura de Wall Street poderá trazer alguma volatilidade adicional aos mercados europeus durante a tarde.
A grande confirmação chegará, no entanto, apenas na sexta-feira, com a divulgação do CPI de agosto nos EUA. O consenso aponta atualmente para uma inflação homóloga de cerca de 3,4% e uma inflação subjacente de 2,4%.
Na quinta-feira será ainda divulgado o PPI norte-americano.
O conflito entre EUA e Irão continua a ser o principal fator geopolítico para os mercados.
A preocupação deixou de estar apenas relacionada com a guerra em si e passou a centrar-se na possibilidade de uma interrupção prolongada dos fluxos de petróleo e produtos refinados através do Estreito de Ormuz.
É esta variável que poderá determinar se o Brent consolida acima dos 95 dólares ou se regressa para níveis mais baixos.
Qualquer indicação de desanuviamento entre Washington e Teerão poderá provocar uma correção rápida do crude. Pelo contrário, novos ataques a navios, instalações energéticas ou infraestruturas de transporte poderão empurrar o Brent para os 100 dólares e aumentar a pressão sobre ações e obrigações.
Europa fecha sessão mista
As praças europeias terminaram a primeira sessão da semana com variações reduzidas, num dia marcado pela ausência de Wall Street devido ao feriado norte-americano.
O PSI 20 foi um dos índices em alta, avançando 0,32% para 9.419,13 pontos, apoiado sobretudo pela Galp, grupo EDP e BCP.
No PSI, a subida de títulos como Galp, EDP e BCP ajudou o índice português a contrariar a tendência mais fraca de algumas das principais praças europeias.
O CAC 40 ganhou 0,33%, para 8.306,15 pontos, enquanto o Euro Stoxx 50 subiu 0,17%, para 6.403,99 pontos.
Em sentido contrário, o DAX recuou 0,15%, para 26.006,53 pontos, o FTSE 100 perdeu 0,08%, para 10.822,13 pontos, e o IBEX 35 caiu 0,14% para 20.021,8 pontos. O Stoxx Europe 600 encerrou praticamente inalterado, em 649,81 pontos, com uma descida marginal de 0,01%.
O setor energético beneficiou da valorização do petróleo, enquanto as empresas ligadas aos semicondutores e à fotónica continuaram a beneficiar do ambiente positivo em torno do investimento em infraestruturas para centros de dados.
Para esta terça-feira, no PSI, a evolução da Galp poderá continuar a funcionar como um contrapeso à pressão sobre outros setores, enquanto BCP beneficia do ambiente de taxas mais elevadas e dos recentes upgrades. Já as empresas mais expostas ao consumo e aos custos energéticos poderão sentir maior pressão caso o petróleo continue a subir.
No plano macroeconómico, o dado mais relevante da sessão foi a revisão em alta do crescimento da economia da zona euro.
O PIB da área do euro cresceu 0,6% no segundo trimestre, em cadeia, enquanto o conjunto da União Europeia avançou 0,7%. Em termos homólogos, a economia da zona euro cresceu 1,2%. A Irlanda destacou-se com uma expansão trimestral de 10,2%, muito acima das restantes economias, refletindo em larga medida a forte atividade de multinacionais presentes no país.
O número é positivo para o crescimento, mas não elimina o principal problema que domina atualmente os mercados europeus: a subida dos preços da energia e o seu impacto sobre a inflação.
BCE: subida de 25 pontos-base praticamente descontada
É precisamente esta combinação — crescimento ainda positivo, mas inflação pressionada pelo petróleo — que coloca a reunião do BCE de quinta-feira no centro das atenções.
Os mercados estão a atribuir atualmente uma probabilidade de 100% a uma subida de 25 pontos-base, que levaria a taxa de depósito para 2,50%.
A questão para os investidores já não é tanto saber se o BCE sobe as taxas, mas o que Christine Lagarde dirá sobre os próximos passos.
A subida do petróleo e da inflação da zona euro aumentou a pressão sobre o BCE. A Reuters nota que a inflação da área do euro terá acelerado para 3,3% em agosto, enquanto o Brent subiu cerca de 35% desde fevereiro.
O mercado estará, por isso, particularmente atento à possibilidade de uma nova subida ainda este ano. O Deutsche Bank passou entretanto a antecipar também uma subida de 25 pontos-base em dezembro, levando a sua previsão para a taxa terminal para 2,75%.
Esta perspetiva ajuda a explicar a pressão sobre as obrigações europeias. O Bund alemão a 10 anos atingiu níveis máximos de vários anos, refletindo a revisão em alta das expectativas para as taxas do BCE.
Na Ucrânia, o foco está novamente nas negociações de paz promovidas pelos Estados Unidos.
Os enviados norte-americanos Steve Witkoff e Jared Kushner estiveram em Moscovo e Kiev durante o fim de semana, numa tentativa de relançar as negociações trilaterais entre Washington, Moscovo e Kiev. O Kremlin admitiu esta segunda-feira que novas conversações poderão ser retomadas, mas ainda não existem datas ou local definidos.
Assim, para os mercados europeus, uma eventual evolução positiva das negociações seria um fator favorável, sobretudo para obrigações e setores mais sensíveis ao crescimento. Mas, neste momento, não há ainda sinais suficientes para assumir uma descompressão significativa do risco geopolítico.
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