Sobrelotação. Portugal escapa ao padrão, mas problema agrava-se nos sub-30
A sobrelotação de casas em Portugal atinge 12,7% da população, mas o valor é bem mais elevado entre os mais jovens, seja qual for a categoria etária analisada: até aos 18 anos, por exemplo, chega a 21,4% e nos jovens adultos (dos 16 aos 29 anos) atinge 21,2%, segundo os dados do Eurostat. Mas como se comparam estes registos historicamente? E como estão os outros Estados-membros?
Vistos à lupa, os dados do gabinete de estatísticas europeu mostram que os valores estão entre os mais elevados dos últimos 20 anos, embora, na grande maioria das idades, ainda não se aproximem dos registos máximos.
Na população como um todo, os 12,7% no ano passado são o sétimo valor mais elevado nesse período. Quando é que foi pior? Em 2007 (16,1%) e nos anos pré-troika como um todo (2006 a 2010). E foi melhor em dois anos da pandemia (2020 e 2022), bem como em vários anos pré-Covid (2015 a 2019).
A maior variação ocorreu em 2011, o ano em que a Comissão Europeia, o FMI e o BCE resgataram o país, com a taxa de sobrelotação a passar de 14,6% para 11%. A quebra, que se acentuou em 2012, ocorreu num período de crise, marcado por desemprego e emigração, com a população a registar as primeiras descidas desde o início da década de 90 — encolheu em 178 mil pessoas ao longo de quatro anos de resgate, numa tendência que só seria travada a partir de 2019 e, sobretudo, a partir de 2021, com a chegada de imigrantes.
Se, por outro lado, analisarmos o ranking da UE, percebemos que é um problema abrangente: apesar de ter mais de 12%, Portugal é apenas o 15.º entre os 27 Estados-membros, posicionado entre a Áustria e a Alemanha, e há nove países com uma taxa superior a 24%, o dobro da portuguesa. A lista é dominada pela Roménia (40,4%) e outros países de baixos rendimentos.
A riqueza nacional
Aliás, ao cruzar este ranking com o PIB per capita em PPS (já ajustado às diferenças de preços entre países), observa-se uma forte correlação: no top 10 da sobrelotação europeia, quase todos têm baixa riqueza por habitante. Há uma só exceção: a Itália, a meio da tabela do PIB per capita europeu (13.º), foi o 9.º país com maior sobrelotação.
Em sentido inverso, há dois países que fogem mais claramente a este padrão entre riqueza nacional e casas com demasiada gente: a Hungria, 23.º PIB per capita, é o 13.º com maior sobrelotação; e Portugal, 18.º em riqueza, está ainda mais distante (5,2 pontos percentuais) desse top 10.
O problema dos jovens
Os números globais, porém, escondem realidades distintas: apenas dois países têm mais de 20% de sobrelotação a partir dos 65 anos, com Portugal a ocupar o 11.º lugar (4%), mas para os mais novos, nomeadamente adolescentes e jovens adultos, o problema é mais agudo.
Entre os 16 e os 19 anos, a Roménia tem uma taxa de sobrelotação de 66,3% e o top 10 termina em 33%. Portugal também ocupa o 15.º lugar, com 21,2%. Dos 20 aos 24 anos, é igualmente grave, com os 10 casos mais problemáticos a oscilarem entre 36,3% e 62,8%. Portugal tem 22%, no 16.º lugar. Em ambos os escalões, o país registou o 7.º valor mais elevado em 20 anos.
No escalão seguinte, entre os 25 e os 29 anos, a incidência da sobrelotação já começa a baixar (top 10 de 28,3% a 50,1%) e Portugal fica em 14.º, com 18,7%. É, no entanto, um ano em que este escalão se destaca no país: em 20 anos, só uma vez, em 2008, a taxa tinha sido tão elevada, tendo subido 3 pontos percentuais em apenas um ano e 5 p.p. desde 2022 (num caso e noutro, saltos semelhantes aos dos dois escalões etários anteriores). Na UE, apenas cinco países tiveram acréscimos superiores face a 2024.
Num contexto de rendas cada vez mais elevadas e de escassa oferta, a subida poderá refletir as crescentes dificuldades dos jovens no acesso à habitação, prolongando a permanência em casa dos pais ou aumentando a partilha de casa.
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