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O país está melhor ou pior?

O país está melhor ou pior?

Portugal está melhor em vários equilíbrios macroeconómicos e financeiros, mas a economia está pouco melhor e, em algumas dimensões sociais, pior, no que determina a capacidade de elevar sustentadamente o nível de vida.
O primeiro lado da história é inequívoco. Em 2016, o desemprego rondava 11%, a dívida pública ultrapassava 130% do PIB, o sistema bancário carregava um rácio de NPL próximo de 17% e Portugal acabava de colocar o défice abaixo do limite europeu. Em 2026, o desemprego está perto de 6%, a dívida deverá ficar abaixo de 90% do PIB e os NPL estão próximos de 2%. A balança externa deixou de apresentar os desequilíbrios que marcaram o início do século. O país atravessou uma pandemia, um choque energético, inflação e uma subida muito rápida dos juros sem perder acesso normal ao financiamento nem regressar a uma crise de balanço de pagamentos.
Também há progressos estruturais reais. As gerações jovens estão muito mais qualificadas, há mais emprego, o peso das fontes renováveis na geração de eletricidade é um dos mais elevados da UE, existem mais empresas tecnológicas, maior digitalização e uma presença internacional muito mais forte em vários setores. O salário mínimo subiu de 530 para 920 euros. A população voltou a crescer, contrariando a trajetória de declínio demográfico, e a imigração permitiu aliviar restrições de mão-de-obra e ampliar a base contributiva.
Mas o teste decisivo é saber se Portugal se aproximou, de forma sustentada, das economias europeias mais prósperas. E aqui a resposta é muito menos favorável. Em 2016, o PIB per capita em paridades de poder de compra era 77% da média da UE. Para 2025, corrigindo o valor à luz da revisão populacional do INE (com os dados atuais) é novamente cerca de 77%. Ou seja, melhorámos em muitas variáveis, mas praticamente não convergimos no indicador que sintetiza o nível de vida relativo.
A explicação está sobretudo na produtividade. Entre 2019 e 2025, Portugal cresceu mais depressa do que na maior parte das duas décadas anteriores, mas o crescimento resultou muito mais do aumento do emprego do que do produto por trabalhador. É um crescimento extensivo importante, mas com limites óbvios num país envelhecido. Persistem baixa escala empresarial, investimento insuficiente, baixa intensidade de I&D, uma estrutura exportadora pouco sofisticada e dificuldade em transformar conhecimento em valor económico. O PRR ajudou, mas o seu sucesso não deve ser medido pela taxa de execução. Deve ser medido pela produtividade, capacidade exportadora e investimento que permanecerem depois do fim do programa.
Há ainda áreas em que a experiência quotidiana piorou. A habitação é o exemplo mais evidente. Os preços mais do que duplicaram face a 2016 e continuavam a crescer muito depressa em 2026. Para os jovens e para as famílias de menores rendimentos, isso reduz poder de compra, adia a emancipação e limita a mobilidade laboral. Os desempregos totais e jovens continuam persistentemente elevados no contexto europeu, mesmo estando atualmente perto de mínimos face a um conjunto de fatores favoráveis temporários que têm bafejado a economia nos últimos aos. E uma parte relevante da população adulta e dos empregadores mantém défices de qualificações e competências que dificultam a adoção produtiva das novas tecnologias.
Creio, por isso, poder afirmar que Portugal está hoje mais sólido, mais empregado, mais internacionalizado e financeiramente menos vulnerável, mas não está ainda suficientemente mais produtivo nem mais rico em termos relativos. Saímos de vários desequilíbrios do passado, mas não do equilíbrio de baixo crescimento estrutural, sendo evidente que o sue ritmo está apenas temporariamente elevado nos anos mais recentes por fatores favoráveis. O grande desafio da próxima década é transformar estabilidade em produtividade: mais escala, mais melhor investimento, qualificações efetivas, mais inovação convertida em valor, um Estado mais eficiente e uma especialização com mais tecnologia e conhecimento. Só então ‘estar melhor’ significará também convergir de forma duradoura com a Europa, notando-se, finalmente, nos ‘bolsos’ dos portugueses.

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