Donald Trump em campanha
Segundo a Constituição dos Estados Unidos, na terça-feira que se segue à primeira segunda-feira de Novembro de cada ano que termine em algarismo par, procede-se à eleição da totalidade dos membros da Câmara de Representantes e de um terço do Senado. Estamos, por conseguinte, a cerca de três semanas dessa eleição.
É normal que, nos anos em que não se realiza eleição presidencial, estas eleições sejam vistas como um teste à popularidade e actuação do Presidente, premiando ou castigando o seu partido consoante os eleitores sentirem que a sua vida está melhor ou pior do que no período anterior.
Também é normal que os resultados desta eleição sejam habitualmente considerados como indicadores fortes das hipóteses de potenciais candidatos a ocupar a Casa Branca no mandato que se irá seguir, sobretudo em anos como o corrente, em que o Presidente em exercício não tem possibilidade legal de se recandidatar.
É igualmente normal que a seguir a esta eleição os Estados Unidos vivam os próximos dois anos em estado de campanha eleitoral permanente, em que o protagonismo será assumido pelos candidatos que sejam apontados como estando à partida em melhor posição, e que haja até a percepção generalizada de que daqui em diante o Presidente em exercício estará algo limitado na sua capacidade de iniciativa para não prejudicar as possibilidades dos candidatos do seu partido.
Mas este ano de 2026 não é normal, porque Donald Trump é diferente de todos os outros Presidentes, e age conforme a sua própria realidade, assente numa interpretação pessoal, que muitas vezes ignora as regras estabelecidas e é construída a partir de factos seleccionados (ou mesmo totalmente inventados), como a ideia de que os funcionários públicos e militares devem lealdade pessoal ao Presidente, e que considera como sendo o único quadro de actuação que lhe interessa.
É perante este quadro que devemos ter em atenção as mais recentes iniciativas de Donald Trump de informar que foi conseguido um acordo entre a Rússia e a Ucrânia para cessar os ataques a infraestruturas energéticas, de autorizar empresas petrolíferas americanas a comprarem certas quantidades de combustíveis russos até Abril de 2027. São afirmações tácticas, que visam criar a expectativa de que os preços dos combustíveis irão baixar, para dessa forma tentar ganhar votos. Mesmo sabendo que a primeira já foi desmentida tanto por russos como por ucranianos, e que a segunda apenas contempla quantidades que na melhor das hipóteses corresponderão a dois dias de consumo dos EUA – admitindo que a Rússia tem capacidade para fornecer essas quantidades, aproveitando um excesso de gasóleo com especificações inadequadas para o período de Inverno que aí vem e de que terá que se desfazer.
Relembrando o que foi a sua reação aos resultados das eleições de 2020, as campanhas para levar os Estados a alterar o desenho das circunscrições eleitorais para dar vantagem aos candidatos republicanos, e as iniciativas para tornar mais difícil o exercício do direito ao voto, limitando a possibilidade de envio dos boletins de voto por correio ou exigindo a comprovação de identidade dos eleitores contra a tradição americana longamente estabelecida, torna-se impossível prever como reagirá Donald Trump depois de Novembro, e até 3 de Janeiro de 2027, altura em que os novos Congressistas tomarão posse, se, conforme as sondagens parecem indicar, o Partido Republicano perder a maioria em ambas as Câmaras. Será provavelmente interessante.
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