“El Niño muito forte”: Cacau e café podem beneficiar e gás natural sair prejudicado
Projeta-se que a tempestade El Niño atinja este ano uma intensidade “muito forte”. Identificar que matérias-primas podem ser mais beneficiadas e prejudicadas é mais simples do que descodificar a ordem dessas mesmas subidas e descidas.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM), em setembro, dizia que o El Niño deve intensificar-se ainda mas nos próximos meses atingindo uma intensidade “muito forte” com uma probabilidade “próxima dos 100%” de durar até fevereiro de 2027. O El Niño pode ter “repercussões significativas” nos padrões de temperatura e precipitação, bem como nos riscos associados de inundações, secas e calor extremo.
Dos analistas consultados pelo Jornal Económico (JE) constata-se que o cacau e o café podem sair beneficiadas com a tempestade enquanto que o gás natural estaria na lista das mais prejudicadas.
Dados compilados pela Freedom24, num cenário de choque severo, pode levar o açúcar e o café a subir até 25% o cacau e a farinha de peixe a valorizar mais de 30% e o gás natural a cair até 20%.
O especialista de mercados da Freedom24, João Lampreia, sublinha, ao JE, que a “questão fundamental” não é tanto saber se o El Niño será forte, mas sim qual o “estado” dos mercados de matérias-primas no momento em que enfrentarem este choque. “Se os stocks fossem elevados e a oferta abundante, o fator meteorológico poderia ser absorvido pelo mercado com relativa facilidade”, considera. “A situação atual é mista. Já se observam restrições da oferta em determinados segmentos, enquanto as alterações meteorológicas se somam a outros fatores – custos de energia, procura por biocombustíveis, riscos geopolíticos e limitações da produção”, refere.
“É precisamente por isso que um El Niño com a mesma intensidade pode ter um impacto significativamente maior numa matéria-prima e praticamente nenhum efeito noutra. A situação na Indonésia é particularmente ilustrativa. O atraso no início da época das chuvas já está a criar riscos simultaneamente para o açúcar, o arroz, o cacau e o óleo de palma, enquanto a produção de óleo de palma poderá cair entre 2% e 8% em 2027”, explica.
O analista da XTB, Henrique Tomé, refere, ao JE, que entre as matérias-primas que podem sair potencialmente beneficiados destacam-se as matérias-primas agrícolas, como o cacau, café e açúcar, onde um clima mais quente e seco em algumas regiões produtoras “pode alterar” as expectativas sobre a produção e consequentemente diminuir a oferta. “No cacau, por exemplo, 61% da produção mundial em 2023 estava concentrada na Costa do Marfim, Gana, Nigéria, Serra Leoa e Togo, o que aumenta a sensibilidade do preço a choques meteorológicos naquela região”, salienta.
“Ainda assim, não esperaria uma reação uniforme das matérias-primas, pois o fator decisivo será a combinação entre a intensidade do El Niño, a localização do choque climático e o estado prévio dos balanços de oferta e procura”, assinala o analista da XTB.
João Lampreia, considera que entre as matérias-primas mais beneficiadas poderiam estar o açúcar, óleo de palma, e entre as mais afetadas poderia estar o gás natural.
No caso do açúcar o Morgan Stanley identifica o açúcar como a matéria-prima agrícola “mais suscetível” de beneficiar de um suporte dos preços. “A razão prende-se com a potencial deterioração das condições de cultivo da cana-de-açúcar em várias regiões produtoras importantes, incluindo a Índia, a Tailândia e outros países do Sudeste Asiático. As alterações das condições meteorológicas no Brasil poderão constituir um fator adicional”, salienta.
“A concentração da produção é particularmente importante no mercado do açúcar. Se um choque meteorológico afetar vários grandes produtores em simultâneo, torna-se difícil compensar rapidamente a quebra da oferta”, acrescenta. “A situação atual na Indonésia demonstra como este mecanismo poderá funcionar na prática. Segundo a Reuters, devido a uma seca prolongada, a produção de cana-de-açúcar no país poderá já estar cerca de 25% abaixo da média, enquanto o início mais tardio do período de chuvas representa um risco adicional para a colheita de 2027. Consequentemente, o período mais relevante para o açúcar poderá não ser o final de 2026, mas sim 2027, quando os efeitos do stress provocado pelas condições meteorológicas começarem a refletir-se na oferta física”, sublinha o especialista de mercado na Freedom24.
Quanto ao óleo de palma, salienta que a Indonésia e a Malásia são grandes produtores, pelo que períodos prolongados de calor e falta de precipitação no Sudeste Asiático “aumentam diretamente” o risco de quebra das produtividades. “Existe, contudo, uma ressalva importante: a resposta do óleo de palma ao stress meteorológico poderá verificar-se com algum atraso. Os efeitos da seca sobre as produtividades poderão apenas tornar-se evidentes vários meses depois do fenómeno meteorológico”, alerta.
Mas já existem estimativas. “A Reuters noticia que as autoridades indonésias antecipam um início mais tardio da época das chuvas: cerca de 61% do território do país poderá enfrentar um atraso. Segundo estimativas de participantes no mercado, a produção de óleo de palma na Indonésia poderá cair entre 2% e 8% em 2027 devido aos efeitos da seca atual. Para o mercado global, mesmo uma quebra de alguns pontos percentuais na oferta poderá ser significativa, sobretudo se a procura por óleos vegetais utilizados na produção de biocombustíveis continuar a aumentar”, destaca.
O analista sublinha que o cacau é outra matéria-prima que é “sensível” às condições meteorológicas, logo sofrerá impacto com o El Niño. “O principal problema reside na elevada concentração da produção e na incapacidade de aumentar rapidamente a oferta: o cacau é uma cultura perene, pelo que as consequências de uma época de cultivo desfavorável não podem ser rapidamente compensadas”, refere.
“É importante que os investidores considerem o outro lado da questão: uma parte significativa do “prémio meteorológico” poderá já estar incorporada nos preços”, alerta. “Assim, uma eventual subida dos preços dependerá não apenas da ocorrência de um El Niño forte, mas também da dimensão dos danos efetivos na colheita face às expectativas do mercado”, explica.
Algo semelhante verifica-se no café. “As condições meteorológicas estão a sustentar os preços do Arábica, mas existe também todo um conjunto de outros fatores em jogo — produção no Brasil e no Vietname, stocks, logística e taxas de câmbio. Por isso, o cacau e o café podem ser considerados mercados de maior volatilidade, mais do que uma aposta exclusivamente associada ao El Niño”, acrescenta.
O El Niño afeta mais do que apenas a agricultura. “O aquecimento das águas superficiais do Pacífico enfraquece o fenómeno de afloramento costeiro – a subida de águas frias e ricas em nutrientes. Isto é particularmente relevante para a indústria pesqueira ao largo das costas do Peru e do Chile”, explica. Isto faz com que a disponibilidade de anchoveta – uma das principais matérias-primas utilizadas na produção de farinha e óleo de peixe – “esteja a diminuir”. O efeito “já se está a refletir” nos preços. “Segundo a FAO, o preço da farinha de peixe de elevada qualidade FOB Peru atingiu cerca de 2500 dólares por tonelada em maio de 2026, face a aproximadamente 1400 dólares um ano antes. Este é um bom exemplo de como o El Niño pode afetar os mercados de matérias-primas através de uma grande variedade de mecanismos físicos: desde as produtividades da cana-de-açúcar até aos ecossistemas marinhos”, reforça.
João Lampreia diz ainda que “um dos equívocos mais comuns” é assumir que um El Niño forte “conduz automaticamente” a uma subida dos preços de todas as matérias-primas agrícolas. “No caso do milho, do trigo e da soja, o cenário é consideravelmente mais complexo”, descreve. “O El Niño pode agravar as condições meteorológicas em algumas regiões e, simultaneamente, melhorá-las noutras”, acrescenta.
“Por exemplo, condições mais húmidas em algumas zonas da América do Sul poderão favorecer as produtividades agrícolas, compensando os efeitos negativos noutras regiões. A Morgan Stanley considera, por isso, menos provável um movimento de subida generalizado nos cereais. No caso da soja, um fator crítico será uma eventual quebra efetiva da produção na América do Sul, enquanto, para o milho, serão muito mais importantes o momento e a localização específicos das alterações meteorológicas”, descreve.
Os dados históricos do BCE também mostram uma “resposta mista”. É precisamente no caso da soja, do milho e do arroz que a transição para um El Niño forte criou historicamente o “maior risco” de subida. “Já a resposta do trigo foi significativamente mais moderada. Assim, no caso dos cereais, é mais rigoroso falar de um aumento da incerteza e da volatilidade do que de uma previsão direcional”, adianta.
O El Niño “também pode provocar problemas” no setor mineiro. “A Morgan Stanley destaca o risco de perturbações na produção de cobre no Chile e na Zâmbia. Uma restrição da oferta num mercado que já beneficia estruturalmente da procura associada à eletrificação, às redes elétricas e aos centros de dados poderá intensificar a pressão de subida dos preços”, salienta.
“No entanto, o El Niño está longe de ser o principal fator determinante neste caso. Para o cobre, o ciclo industrial global, a procura chinesa, os inventários e o investimento em infraestruturas são muito mais importantes. Assim, o impacto das condições meteorológicas deve ser encarado como um risco adicional para a oferta”, alerta.
Gás natural pode ser prejudicado pelo El Niño
O analista da XTB, Henrique Tomé, considera que entre as [matérias-primas] potencialmente prejudicadas pelo Niño tal “pode ser mais evidente” no gás natural, caso as temperaturas mais elevadas associadas ao El Niño “reduzam” a procura por aquecimento durante o inverno no hemisfério norte.
O especialista de mercados da Freedom24, João Lampreia, coloca também o gás natural como podendo ser uma das matérias-primas que podem sair prejudicadas com o El Niño. “Na América do Norte, o El Niño tende a aumentar a probabilidade de um inverno mais quente. Isto reduz a procura por aquecimento e, consequentemente, o consumo de gás natural. Um exemplo histórico é o inverno de 2015-16, quando um El Niño forte coincidiu com um número significativamente inferior de dias de necessidade de aquecimento nos EUA e com uma redução da procura para aquecimento. No entanto, atualmente esta relação está longe de ser o único fator que influencia o mercado do gás. A produção norte-americana, as exportações de GNL, os níveis de stocks e o equilíbrio global do mercado de GNL podem compensar significativamente o impacto das temperaturas”, descreve.
“É, por isso, mais rigoroso dizer que um El Niño forte cria um risco adicional de pressão negativa sobre o gás natural, em vez de garantir uma descida dos preços. No caso do gás europeu, o efeito também é misto: um inverno ameno reduz a procura por aquecimento, mas o mercado continua sensível à oferta de GNL, aos stocks e aos riscos geopolíticos”, reforça.
Expetativas pesam nas matérias-primas
Apesar de se poder identificar que matérias-primas podem sair mais beneficiadas ou não, com o El Niño, João Lampreia destaca outro ponto importante para os investidores. “O El Niño não deve ser encarado como uma surpresa. Os mercados de futuros reagem às previsões meteorológicas muito antes da publicação das estatísticas das colheitas. A análise histórica do BCE mostra que, após notícias sobre o desenvolvimento do El Niño, os preços dos futuros de soja e milho subiram aproximadamente 12% e 10%, respetivamente, num curto período, enquanto a volatilidade implícita também aumentou”, assinala.
Isto significa que a oportunidade potencial apresenta uma “assimetria”. O analista sublinha que se os danos efetivos nas colheitas forem superiores ao esperado, as matérias-primas “poderão ganhar um novo impulso de subida”. Mas se as condições meteorológicas “forem menos destrutivas” do que os modelos atuais sugerem, parte do prémio meteorológico “poderá rapidamente desaparecer” dos preços de mercado. “É precisamente por isso que as matérias-primas com maior exposição física ao El Niño não serão necessariamente as que oferecem os melhores retornos de investimento. Se o mercado já tiver descontado um cenário de escassez, mesmo uma colheita fraca poderá não ser suficientemente negativa para desencadear novas subidas dos preços”, afirma.
Difícil descodificar ordem de subidas e descidas
Henrique Tomé refere que “não é fácil de estar já a especular” quanto à magnitude dos movimentos, pois “dependerá” da intensidade em determinadas regiões, e nem todas as regiões têm a mesma importância para determinadas matérias-primas. “Para já o mercado não parece estar a incorporar este risco e pela evolução da curva dos futuros também não se verificam grandes mudanças, mas obviamente que devemos acompanhar de perto o preço das matérias-primas referidas”, salienta.
“Não é fácil de estar já a especular” quanto à magnitude dos movimentos, pois “dependerá” da intensidade em determinadas regiões, e nem todas as regiões têm a mesma importância para determinadas matérias-primas. “Para já o mercado não parece estar a incorporar este risco e pela evolução da curva dos futuros também não se verificam grandes mudanças, mas obviamente que devemos acompanhar de perto o preço das matérias-primas referidas”, salienta o analista da XTB.
“Seria incorreto apresentar uma previsão precisa nesta fase. A reação das matérias-primas depende de três variáveis: a intensidade do El Niño, a localização geográfica do choque meteorológico e a medida em que os preços atuais já incorporam futuras situações de escassez. Ainda assim, os dados históricos permitem estimar a ordem de grandeza dos movimentos”, explica João Lampreia. O analista sublinha que durante um El Niño forte, o índice global de matérias-primas alimentares registou historicamente uma subida de cerca de 9% no pico. “Mercados individuais com uma base de oferta mais concentrada podem registar movimentos significativamente mais acentuados”, destaca.
Em termos de cenários, o potencial impacto pode ser apresentado da seguinte forma, salienta João Lampreia:
Matéria-prima
Potencial impacto
Variação potencial do preço em caso de choque severo
Açúcar
Positivo
+10–25%
Óleo de palma
Positivo
+10–25%
Cacau
Positivo, mas com uma base elevada
+10–30%+
Café
Positivo
+10–25%
Arroz
Positivo
+10–20%
Farinha de peixe
Positivo
+10–30%+
Cobre
Moderadamente positivo
+5–15%
Trigo
Misto
0–15%
Milho
Misto
0–15%
Soja
Misto
-5% / +10%
Gás natural
Potencialmente negativo
-10%–20%
Petróleo bruto
Misto
-5% / +10%
“Estas amplitudes devem ser encaradas como estimativas baseadas em cenários e não como objetivos de preço. No caso de matérias-primas específicas, os movimentos efetivos poderão ser significativamente superiores ou inferiores, dependendo de outros fatores fundamentais”, sublinha.
O El Niño “está gradualmente” a passar de fenómeno climático a um fator com “impacto próprio” nos mercados financeiros. “De acordo com os dados mais recentes da NOAA, o fenómeno continua a intensificar-se: a probabilidade de atingir a categoria de «muito forte» no outono-inverno de 2026-27 supera os 90%. Além disso, a NOAA estima em 75% a probabilidade de ocorrer um episódio historicamente forte, com um índice RONI superior a +2,5 °C, entre outubro e dezembro”, salienta.
“A dimensão potencial deste fenómeno é relevante para os investidores, uma vez que o El Niño pode alterar os padrões habituais de precipitação e temperatura em várias regiões agrícolas importantes em simultâneo”, considera o especialista em mercados na Freedom24. “Como resultado, não só se altera a dimensão das futuras colheitas, como também as expectativas relativamente à oferta de matérias-primas, refletidas nos preços dos futuros mesmo antes de serem divulgados os dados efetivos de produção”, destaca. Este adianta que os dados históricos confirmam que o impacto “pode ser significativo”. Aqui entram as estimativas do BCE que referem que a transição de um El Niño normal para um fenómeno forte “poderá provocar” uma subida dos preços globais das matérias-primas alimentares de aproximadamente 9% no pico, sendo que o efeito máximo ocorreu historicamente cerca de 16 meses após o início de um episódio forte. “Para todas as matérias-primas não energéticas, o efeito histórico agregado é estimado em aproximadamente 5%”, acrescenta.
Principal impacto pode vir em 2027
João Lampreia diz que existe um “desfasamento temporal” entre um choque meteorológico e a alteração final da oferta. “Primeiro, alteram-se a temperatura e a precipitação; depois, as condições das culturas e as produtividades; posteriormente, a oferta física; e só depois os preços para os consumidores finais”, descreve.
“A Morgan Stanley considera, por isso, 2027 como o período-chave em que o El Niño poderá potencialmente afetar a inflação alimentar. Por outras palavras, o mercado das matérias-primas pode começar a movimentar-se agora, mas as suas consequências macroeconómicas tornar-se-ão visíveis mais tarde”, diz. “Isto é particularmente importante para os bancos centrais. A subida dos preços dos alimentos poderá abrandar o processo de desinflação mesmo na ausência de um novo choque do lado da procura”, salienta.
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