Vitória de Lula significa que “tendência mais à direita não é irreversível”
Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente do Brasil pela quarta vez. Ao Jornal Económico, o politólogo José Palmeira diz que isso demonstra que “a tendência de virar à direita [vivida na Europa] não é irreversível”. Já o comentador de política, Miguel Baumgartner, assinala que esta vitória é positiva para Portugal e para a Europa.
Segundo José Palmeira “a vida política brasileira é muito especifica, é uma realidade muito própria, muito polarizada em torno de setores bastante extremados”. “Lula da Silva vem do partido dos trabalhadores (PT), Bolsonaro é alguém que está na política no âmbito da sua família, e isso não é propriamente transponível para Portugal uma vez que em Portugal existem três blocos partidários e um modelo de governo semi-presidencialista e não como no Brasil, que tem o sistema presidencialista”, aponta o politólogo.
Ainda assim, a vitória de Lula da Silva poderá dar um sinal para a Europa, onde “há uma tendência dos eleitores votarem mais à direita”. “No Brasil isso não aconteceu, os eleitores votaram mais à esquerda o que significa que o voto na direita não é irreversível, e tal como aconteceu no Brasil, pode acontecer também na Europa”. Miguel Baumgartner sublinha as diferenças entre Portugal e Brasil, “Lula da Silva tem todo um historial de vida, uma dimensão e uma presença na cultura e na política brasileira extremamente forte, o que não existe em Portugal”.
De recordar que na primeira volta presidencial Flávio Bolsonaro terminou o escrutínio na frente de Lula da Silva. Na primeira volta, a 4 de outubro, Flavio Bolsonaro obteve 56.104.503 votos (47,03% dos votos válidos) e Lula da Silva 53.879.538 votos (45,16% dos votos válidos). Na segunda volta, ontem 25 de outubro, Lula da Silva ganhou com 64.256.232 votos (51,79% dos votos válidos) e Bolsonaro ficou atrás com 59.826.041 votos (48,21% dos votos válidos)
Coligação da direita e esquerda
“Nesta eleição, Lula foi buscar a direita tradicional brasileira e por isso pode-se dizer que foi uma grande coligação de centro direita e centro esquerda, que decidiram unir-se na figura de Lula da Silva para derrotar a extrema direita”, afirma Miguel Baumgartner. Transpondo para Portugalm “isso seria como ter um CDS, um PSD, PS, um Livre e um BE a juntarem-se em volta de um candidato para derrotar um candidato da extrema direita”. Aliás, isso já aconteceu em Portugal, Miguel Baumgartner recorda “na eleição de António José Seguro como presidente da República no qual uma quantidade de figuras ligadas à direita portuguesa e outras ligadas ao PS, Livre e BE a apoiarem o candidato”.
Vitória “positiva” para Portugal
No geral, a vitória de Lula é “extremamente positiva” para Portugal e para a Europa, explica o especialista em política. “A família Bolsonaro nunca foi grande fã de Portugal e nunca viu o país como hub de entrada económico do Brasil na Europa. Ao contrário, Lula da Silva é um grande defensor do acordo Europa – Mercosul, sempre viu a Europa como um grande parceiro económico do Brasil, depois da China. Sabe-se que Flávio Bolsonaro tinha a intenção de se juntar ao Chile e à Argentina e colocar em causa o acordo do Mercosul”.
Brasil e os EUA
À pergunta se a relação entre o Brasil e os Estados Unidos vai mudar, José Palmeira, acrescenta que “nada vai mudar porque Lula vai continuar no poder”. “Será que o Brasil cederia mais nas terras raras com Bolsonaro na presidência?”, pergunta o politólogo, que ainda assim defende que Lula da Silva não “vai querer cortar pontes com Trump”.
Na “sua política [de Lula] é muito crítico [de Trump], porque, por norma, os brasileiros são muito críticos dos norte-americanos, por outro lado são cidadãos e também políticos que não querem de maneira nenhuma cortar com os EUA”.
Miguel Baumgartner assinala que “as relações diplomáticas dos EUA com o Brasil nunca foram muito famosas porque existe por parte de Donald Trump a ideia de que o Lula é efetivamente o homem da Rússia e da China na América Latina”. “Veja-se que a China é hoje o maior parceiro económico do Brasil e tem uma importância na economia brasileira muito superior à importância dos EUA”. “A China compra cerca de 86% das terras raras do Brasil, e é também um dos compradores dos hidrocarbonetos, Akém também uma parceria estratégica através dos BRIC que é muito importante”, destaca.
Entretanto, o candidato derrotado, Flávio Bolsonaro já anunciou a intenção de pedir a anulação das eleições. Em causa está o alargamento do horário de votação. No domingo à tarde, o Supremo Tribunal Federal (STF) prorrogou por mais duas horas o horário de votação nos locais onde as urnas ainda estavam abertas. A decisão foi tomada após um pedido da campanha de Lula da Sila, que acionou o Tribunal Superior Eleitoral e o STF, e que denunciou a falta de autocarros de transporte público em várias cidades brasileiras.
Flávio Bolsonaro também acionou o Tribunal Superior Eleitoral para pedir a prorrogação da votação, mas apenas nas cidades afetadas pelas chuvas torrenciais. O pedido, no entanto, não chegou a ser analisado.
Lula da Silva tomará posse a 5 de janeiro de 2027.
Share this content:



Publicar comentário