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Ana Botín defende simplificação regulatória e mobilização de poupanças europeias para financiar crescimento económico

Ana Botín defende simplificação regulatória e mobilização de poupanças europeias para financiar crescimento económico

A presidente executiva do Santander, Ana Botín, defendeu esta terça-feira que a Europa precisa de mobilizar mais investimento privado, simplificar a regulação e reforçar a capacidade de financiamento dos bancos para acelerar o crescimento económico e aumentar a resiliência da região, num contexto marcado pela incerteza geopolítica, tecnológica e económica.
Na abertura da edição de 2026 da Santander International Banking Conference, a presidente do banco considerou que crescimento e resiliência são dois objetivos indissociáveis. “Não pode haver crescimento sem uma resiliência forte, mas, para sermos resilientes, temos de acelerar o crescimento”, afirmou.
Ana Botín alertou que, apesar de a economia mundial ter demonstrado capacidade de resistência nos últimos anos, perante a pandemia, as guerras, os choques energéticos e a inflação elevada, essa resiliência teve custos. A economia está atualmente a crescer a um ritmo cerca de metade do registado anteriormente, enquanto a inflação continua a penalizar as famílias. A responsável considera, por isso, que as economias dispõem hoje de menos margem de segurança para enfrentar novos choques.
A presidente do Santander alertou que a manutenção de um crescimento reduzido na União Europeia representa riscos para a segurança, os sistemas de pensões e a transição de capital, além de poder agravar as tensões sociais. Para inverter esta tendência, defendeu uma maior articulação entre os setores público e privado, sublinhando que nenhum deles conseguirá, isoladamente, responder às necessidades de investimento da economia europeia.
Na sua intervenção, identificou quatro áreas prioritárias para acelerar o crescimento na Europa: centros de dados e inteligência artificial, energia e redes elétricas, defesa e habitação a preços acessíveis.
No caso da energia, alertou para o subinvestimento em muitas das redes elétricas europeias, que considera essencial reforçar para responder às necessidades futuras. Na defesa, sustentou que a Europa já não pode dar como garantida a sua segurança e tem de aumentar a capacidade de investimento. Referiu ainda a habitação acessível como uma prioridade social, defendendo que a resposta ao problema deve passar sobretudo pelo aumento da oferta e não pelo estímulo à procura.
Bancos podem libertar 273 mil milhões de euros para financiar a economia
Ana Botín atribuiu ao setor bancário um papel central neste processo, numa altura em que a capacidade de intervenção dos governos está limitada pela situação das finanças públicas. A presidente do Santander apontou para um défice público agregado da Europa que deverá situar-se em 3,5% do PIB este ano e para uma subida das taxas de rendibilidade das obrigações soberanas a dez anos para níveis próximos de 4%, os mais elevados em 14 anos.
Perante este cenário, defendeu que a mobilização da poupança privada é indispensável para financiar o investimento necessário. A Europa dispõe, segundo os números apresentados pela responsável, de 13 biliões de euros em património financeiro líquido das famílias, mas uma parte significativa dessa poupança é aplicada fora da região, sobretudo nos Estados Unidos.
A opinião de Ana Botín coincide com a de Maria Luís Albuquerque, Comissária europeia de Estabilidade Financeira, Serviços Financeiros e Mercado de Capitais da União Europeia, também presente na mesma conferência que está a ser transmitida também online.
“Temos a poupança, mas precisamos de bancos fortes e de capital forte para podermos conceder crédito”, afirmou Ana Botín, sublinhando que, embora os bancos não sejam a solução completa, não poderá existir uma resposta eficaz sem o contributo do setor financeiro.
A presidente do Grupo Santander destacou um estudo recente da Federação Bancária Europeia, baseado em 15 bancos que representam 66% do setor bancário europeu, segundo o qual existe potencialmente um montante de 273 mil milhões de euros de capital que poderia ser colocado ao serviço da economia.
Trata-se de capital que excede os requisitos regulamentares, em parte devido às exigências de supervisão, e cuja mobilização poderia ter um impacto significativo no financiamento da economia.
De acordo com os exemplos apresentados por Ana Botín, esse montante permitiria financiar mais 16 milhões de créditos à habitação na Europa, disponibilizar 150 mil euros a cada pequena e média empresa ou cobrir três anos e meio das necessidades adicionais de financiamento da região nas áreas da defesa, energia e digitalização.
Mais simplificação regulatória, sem desregulação
Para libertar essa capacidade de financiamento, Ana Botín defendeu uma recalibração do enquadramento regulatório e de supervisão, afastando, contudo, a ideia de desregulação.
“Não estamos a falar de desregulação, mas de uma recalibração e de um enquadramento mais simples, não mais fraco”, afirmou. Na sua perspetiva, esta necessidade não se limita à banca, abrangendo também setores como a energia, a indústria farmacêutica e a habitação.
A presidente do Santander defendeu ainda que as autoridades de supervisão devem passar a integrar a promoção do crescimento e da competitividade nos seus mandatos, a par dos objetivos de prudência e estabilidade financeira.
“Sempre que são tomadas decisões de supervisão, a questão deve ser: isto é prudente? É seguro? Mas também está a ajudar-nos a acelerar o crescimento e a ser mais competitivos?”, defendeu.
A responsável considerou que esta alteração permitiria desbloquear capacidade adicional de concessão de crédito e constituiria uma oportunidade relativamente rápida de concretizar, num momento em que a Europa precisa de reforçar o investimento.
Ana Botín apontou também a necessidade de acelerar a construção de um mercado único de serviços, a união bancária e a união dos mercados de capitais, embora considere que existem medidas que podem ser implementadas antes de esses projetos estarem concluídos.
A concluir, a presidente do Santander manifestou confiança na capacidade da Europa para responder aos desafios atuais, mas apelou a decisões concretas para reforçar a competitividade. Destacou, neste contexto, a importância de desenvolver o mercado europeu de titularização, que representa apenas uma pequena fração do mercado norte-americano, estimando que corresponda a cerca de 7% a 8% deste último.
“A resiliência é a fundação. O crescimento é o objetivo. E o investimento é a ponte”, sintetizou Ana Botín, defendendo que uma regulação inteligente, capaz de facilitar o financiamento da economia, será determinante para alcançar esses objetivos.

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