Petróleo desceu mais de 5% com perspetiva de entendimento entre EUA e Irão
O preço do petróleo caiu mais de 5% durante segunda-feira, negociando abaixo dos 100 dólares por barril, depois de no fim-de-semana terem surgido notícias de um possível entendimento entre Estados Unidos e Irão, para colocar uma pausa na guerra no Médio Oriente, e também abrir o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo global. Mas analistas alertam que caso este otimismo não seja confirmado os preços podem voltar a subir acima dos 100 dólares por barril.
As notícias levaram a que o brent, referência para o petróleo extraído do Mar do Norte, voltasse a negociar abaixo dos 100 dólares ao transacionar [à altura da escrita deste artigo] nos 94,42 dólares (-5,78%) enquanto o crude caía 5,94% para os 90,86 dólares.
“Já estivemos nesta situação antes, mas as negociações acabaram por falhar. Por isso, é provável que o mercado seja mais cauteloso e não reaja de forma exagerada a estas notícias”, referiram analistas do ING, numa nota transcrita pela publicação financeira Investing.
“O crude está a perder cerca de 5% no início da última semana de maio, atingindo os seus níveis mais baixos em mais de um mês. No entanto, mesmo com um otimismo significativo, parece que um piso de curto prazo poderá rondar os 85 dólares por barril e, com um retorno massivo da oferta, algures em torno dos 75 dólares”, referia a corretora XTB.
A XTB considera que a atual fuga de capitais dos contratos de petróleo bruto “poderá revelar-se prematura”. Para a corretora se não surgirem nos próximos dias provas concretas que demonstrem que o otimismo dos EUA era bem fundamentado, o preço do petróleo brent “voltará facilmente a ultrapassar” a marca dos 100 dólares por barril.
“Os investidores estarão conscientes de que, em ocasiões anteriores, movimentos semelhantes [descida no preço do petróleo] foram seguidos por um regresso a níveis mais elevados, à medida que as expectativas não se concretizaram em desenvolvimentos reais no terreno. Neste contexto, os mercados continuarão atentos à evolução da situação. Caso seja alcançado um acordo e um número significativo de navios petroleiros comece a atravessar o Estreito, os preços poderão cair ainda mais, embora seja pouco provável que regressem, para já, aos níveis pré-guerra, uma vez que a normalização das operações deverá demorar vários meses. Por outro lado, a ausência de progressos e um regresso a uma postura menos construtiva de ambas as partes poderão dissipar o atual otimismo e empurrar novamente os preços para níveis bastante acima dos 100 dólares por barril”, disse o CEO da ActivTrades Europe, Ricardo Evangelista.
A corretora alertou que mesmo que se considere um cenário extremamente otimista, em que o acordo seja assinado nos próximos dias, a reconstrução física das cadeias de abastecimento interrompidas é uma “questão de muitos meses, senão anos”. A XTB reforçou que os mercados de futuros “reagem instantaneamente”, mas a infraestrutura física opera sob regras completamente diferentes.
“O principal problema estrutural nos mercados continua a ser a redução drástica das reservas globais. Os países consumidores, procurando evitar a paralisia das suas economias, esgotaram os seus stocks a um ritmo recorde. Só em Março e Abril, estes stocks diminuíram em mais algumas centenas de milhões de barris. O mundo enfrenta agora a necessidade de reabastecer estes reservatórios vazios”, assinala.
A corretora destacou ainda, ao nível do consumidor, um fator que considera crucial. “Os preços nos postos de abastecimento podem cair muito mais lentamente do que as cotações do petróleo na bolsa. Enquanto o crude mais barato não chegar às refinarias e os custos de frete não baixarem, os preços nos postos de abastecimento de combustível permanecerão elevados. É ainda de referir que os países produtores necessitarão que os preços estejam elevados em relação à realidade do mercado para reconstruir as suas infraestruturas e canais de transporte”, descreveu.
Ouro, prata e cobre sobem com possibilidade de acordo
Estes desenvolvimentos também tiveram efeitos noutras matérias-primas. Ouro, prata e cobre subiram com perspetivas de diminuição da tensão no Médio Oriente.
O ouro subia 0,91% para os 4.597,72 dólares por onça, a prata valorizava 2,12% para os 77,81 dólares por onça e o crude tinha um incremento de 0,85% para os 6,43 dólares.
As principais bolsas europeias também reagiam positivamente aos mais recentes desenvolvimentos no Médio Oriente, na segunda-feira.
O DAX (Alemanha) durante o dia avançou 1,35%, o CAC 40 (França) valorizava 1,77%, o AEX (Países Baixos) subia 0,92%, o IBEX 35 (Espanha) valorizava 2,15%, o FTSE MIB (Itália) subia 1,26%, e o PSI (Portugal) crescia 0,50%.
Já as bolsas norte-americanas estiveram encerradas, na segunda-feira, por ser feriado (Memorial Day). O mesmo aconteceu com o FTSE 100 (Reino Unido)
Estados Unidos e Irão confirmam avanços mas não dão acordo como fechado
Apesar do ânimo do investidores acumulado no fim-de-semana, com a possibilidade de paz no Médio Oriente, as declarações de responsáveis norte-americanos e iranianos não dão o acordo como fechado.
Na segunda-feira o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, citado pela imprensa, na deslocação que efetuou a Nova Deli, salientava que os Estados Unidos iriam dar prioridade à via diplomática antes de explorarem “alternativas”.
Marco Rubio esclareceu que existia “algo bastante sólido em cima da mesa em termos da sua capacidade de abrir o Estreito de Ormuz, conseguir que o Estreito (de Ormuz) seja aberto, entrar numa negociação muito real, significativa e com um prazo determinado sobre a questão nuclear”, referindo que a expetativa norte-americana era a de que se pudesse “concretizar”.
Já o presidente norte-americano, Donald Trump, na rede social Truth Social, referia na segunda-feira, que o acordo será “ótimo e significativo” ou caso não fosse “não haveria” acordo nenhum.
Do lado iraniano o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, Esmaeil Baghaei, em conferência de imprensa, admitiu na segunda-feira, que apesar de se ter chegado a um conclusão sobre muitos temas isso “não significava que estejamos perto de assinar um acordo”.
De acordo com a Reuters esse memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irão estaria assente em 14 pontos, entre os quais: o fim da guerra e do bloqueio norte-americano no Estreito de Ormuz, se existisse a garantia por parte do Irão de trânsito seguro pelo Estreito de Ormuz.
Esmaeil Baghaei disse ainda que as negociações que decorrem com o lado norte-americano não incluem a questão nuclear, salientando que o tema deve ser negociado ao longo de 60 dias, caso seja dada luz verde a este memorando de entendimento.
Durante o fim-de-semana Donald Trump esclareceu que as negociações que decorriam com o Irão continuavam a correr bem com vista à assinatura de um acordo “de princípio”, mas que até que isso acontecesse iria ser mantido o bloqueio norte-americano aos portos iranianos.
“As negociações estão a decorrer de forma ordenada e construtiva”, disse Donald Trump na sua plataforma Truth Social, advertindo contra precipitações.
“Informei os meus representantes para não se apressarem a fechar um acordo, pois o tempo está do nosso lado”, escreveu o governante norte-americano.
Assim, Donald Trump assegurou que o bloqueio dos Estados Unidos no perímetro de Ormuz, em retaliação ao bloqueio do Estreito por Teerão, “permanecerá em vigor até que um acordo seja alcançado, certificado e assinado”.
“Ambos os lados precisam de ir com calma e fazê-lo bem. Não pode haver erros”, acrescentou Donald Trump.
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