A carregar agora

O debate angolano, entre o poder e a desconfiança

O debate angolano, entre o poder e a desconfiança

Entende-se aqui como debate angolano o conjunto de discussões levadas a cabo nas rádios e televisões sobre a vida política, social e económica do país. Este debate está, fortemente, condicionado pelos princípios de luta pelo poder e pela desconfiança reinante na sociedade angolana.
Assim sendo, qualquer argumento crítico ou favorável é analisado à luz destes dois princípios, desvalorizando-se, pois, a validade das preposições argumentativas apresentadas no debate.
O debate angolano parece obrigar os participantes a optar por uma posição de partida a favor ou conta, devido ao ambiente polarizado instalado na realidade e fomentado pelas redes sociais. Deste modo, um posicionamento de maior neutralidade num espaço marcado pela disputa pela alternância de poder é encarado como um calculismo ou tacticismo.
É por isso que este debate alimenta e realimenta o conflito político, e não cria uma esfera de consenso, onde o argumento suplanta, em si, o posicionamento de partida.
Estamos, efectivamente, numa esfera de opinião, através do debate angolano, em disputa pelo protagonismo mediático e não num ambiente de diálogo das partes sobre as alternativas políticas, económicas e sociais na realidade angolana.
O diálogo obrigaria, efectivamente, a um exercício de escuta e de compreensão de uma posição distinta e, por vezes, tão absurda por parte dos intervenientes no debate.
A falta de uma cultura de diálogo entre os intervenientes no debate gera uma postura de ausência ou de condicionamento do debate angolano.
A postura de ausência decorre quando alguns responsáveis pela governação do país decidem não participar no debate, recusando-se a um exercício de prestação de contas. Quando alguns participam acabam por escolher um ambiente controlado, como estações de rádio ou de televisão favoráveis à sua narrativa.
O receio de participar no debate obrigou o governo a investir numa comunicação institucional, com um ambiente fechado e, sobretudo, fortemente controlado, de forma a assegurar que o governante possa esgrimir os seus argumentos sem nenhum tipo de contraditório ou contraposição. Ou seja, com um risco comunicacional, fortemente, controlado.
Notamos que a ideia de uma esfera pública da racionalidade argumentativa, na qual se pode alcançar uma decisão racional depois de dispor dos argumentos, não se aplica ao debate angolano.
Este debate encontra-se assente na disputa pelo poder e pela desconfiança entre os sujeitos envolvidos e é isto que dita a sua singularidade. É, portanto, um tipo de debate que reduz o valor do argumento e da sua validade interna.

Share this content:

Publicar comentário