O vírus do luxo
Um ginásio privado ao ar livre com vista para o oceano, terraço exclusivo para banhos de sol e um mordomo disponível 24 horas por dia. Nos mais recentes navios de cruzeiro de luxo, os passageiros podem desfrutar de experiências pensadas para rivalizar com os melhores hotéis do mundo, enquanto navegam entre destinos paradisíacos. Em algumas destas suítes, uma única noite pode custar mais de 25 mil euros. A indústria dos cruzeiros vive uma nova era de prosperidade. Impulsionadas pela procura de viajantes com elevado poder de compra, as operadoras investem em navios cada vez mais sofisticados, equipados com spas privados, restaurantes de alta gastronomia, serviços personalizados e alojamentos que mais se assemelham a apartamentos de cinco estrelas. O objetivo é claro: oferecer exclusividade, privacidade e conforto num mercado em rápida expansão.
Apesar da atenção gerada pelos casos de infeção por hantavírus associados a viagens de cruzeiro, o episódio não teve impacto no ritmo de crescimento do setor. Os portugueses continuam disponíveis para explorar tanto destinos de proximidade, como as Canárias, ou viagens de longo curso para locais mais remotos, entre os quais o Alasca. “Os clientes não cancelaram as reservas e alguns até já marcaram três ou quatro viagens até ao final do ano”, afirma Fernando Santos, diretor-geral da agência GlobalSea CruiseXperts ao Jornal Económico. “A generalidade dos viajantes compreendeu que se tratou de um caso isolado, mantendo a confiança num produto que se carateriza por elevados padrões de higiene, saúde e segurança”, sublinha Pedro Quintela, diretor geral de vendas da Agência Abreu.
Os números confirmam esta tendência. De acordo com a Associação Internacional de Companhias de Cruzeiros (CLIA), o turismo de cruzeiros cresceu 7,3% em Portugal em 2025, atingindo os 80 mil passageiros. Quanto a destinos, os mais procurados pelos passageiros portugueses, em 2025, foram o Mediterrâneo, seguido pelas Caraíbas, com destaque para as Bahamas e Bermudas. A CLIA traça também um perfil do passageiro português, revelando que este tem, em média, 48 anos de idade e realiza, por norma, cruzeiros com oito dias de duração. Também o impacto económico gerado pelo turismo de cruzeiros está a crescer a nível nacional e, no ano passado, chegou aos 940 milhões de euros, contribuindo com 410 milhões de euros para o PIB e gerando 9.800 postos de trabalho. A CLIA espera ainda que, este ano, a indústria de cruzeiros passe a contar com oito novos navios, que representam um investimento de 6,6 mil milhões de dólares (5,6 mil milhões de euros). O setor conta com mais de 70 companhias de cruzeiros e mais de 300 navios em operação, onde se destacam grupos como Royal Caribbean Group e Carnival Cruise Line, bem como operadores de luxo como a Regent Seven Seas Cruises e a Four Seasons Yachts.
“Não temos sentido qualquer alteração nas vendas de cruzeiros. É claro que o tema do hantavírus foi amplamente divulgado, mas acabou por ficar confinado àquele navio específico. Não temos notícia de qualquer impacto nas reservas e ninguém nos tem reportado efeitos diretos relacionados com essa situação”, diz Miguel Quintas, presidente da Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV), ao Jornal Económico. O perfil dos passageiros de cruzeiros varia em função da época do ano e do tipo de viagem escolhida. Segundo Miguel Quintas, existem diferentes segmentos dentro deste mercado, desde os grandes navios destinados ao público de massas até às viagens mais especializadas. “Há muitos géneros de cruzeiros. Temos aqueles que são considerados mais mass market, com cerca de cinco mil pessoas, que andam no Mediterrâneo na altura do verão. Temos cruzeiros nas Caraíbas, cruzeiros fluviais e outros que operam junto ao Polo Norte ou ao Polo Sul”, explica.
Já os cruzeiros de luxo representam uma fatia mais reduzida do mercado nacional. “A maior parte das reservas de cruzeiros são feitas através de agências de viagens porque têm muita especificidade”, explica Miguel Quintas. Entre os fatores que exigem aconselhamento estão a escolha da cabina, a localização no navio, os serviços incluídos e as excursões disponíveis em cada escala.
Em comparação com o ano passado, a procura por cruzeiros mantém-se globalmente estável, embora influenciada por alguns fatores conjunturais. Entre estes, destacam-se a redução da oferta no Médio Oriente, resultante de ajustamentos operacionais efetuados por algumas companhias. Ainda assim, os destinos mais procurados pelos portugueses continuam a ser o Mediterrâneo, o Norte da Europa e as Caraíbas. Se o hantavírus teve um impacto reduzido, o mesmo não se pode dizer da situação geopolítica no Médio Oriente. “O conflito no Médio Oriente traduziu-se no total cancelamento da operação das companhias de cruzeiros naquela região, impactando bastante o mercado, sobretudo para o inverno europeu, altura em que proporcionaria bom tempo e segurança aos clientes, acrescenta Pedro Quintela, diretor geral de vendas da Agência Abreu.
O mercado português de cruzeiros continua a apresentar uma taxa de penetração inferior à média europeia. Enquanto na Europa cerca de 2% da população opta por este tipo de férias, em Portugal a taxa situa-se nos 0,7%.
Segundo Pedro Quintela, esta diferença explica-se, em grande medida, pela localização geográfica do país e pela distância aos principais portos europeus de embarque. Por essa razão, os cruzeiros com partida de Lisboa continuam entre as opções preferidas dos viajantes portugueses. Para 2026, a expectativa da Agência Abreu é de estabilidade. “Esperamos um desempenho em linha com os resultados registados nos últimos anos”, conclui o diretor geral de vendas da Agência Abreu.
No “State of the Cruise Industry Report 2026”, publicado em abril, a CLIA estima que 38,3 milhões de pessoas viajarão em navios de cruzeiro de alto mar este ano, mais 4% do que o recorde de 37 milhões de passageiros registado no ano passado. Durante uma conferência telefónica com investidores, a companhia de cruzeiros Viking, sediada na Suíça, afirmou que a procura pelos seus cruzeiros fluviais abrandou ligeiramente durante os primeiros três meses deste ano, depois de começar a guerra no Irão, mas recuperou rapidamente. A Viking indicou que 92% dos cruzeiros de 2026 e 38% dos de 2027 já estavam reservados.
Andrew Coggins, analista da indústria de cruzeiros e professor na Lubin School of Business da Pace University, em Nova Iorque, afirma que, mesmo que os viajantes prestes a embarcar num cruzeiro fiquem nervosos com as últimas notícias, é pouco provável que consigam um reembolso. “Penso que, se houver algum impacto na procura, será a longo prazo”, disse. “Se vai fazer um cruzeiro nos próximos meses, já passou o prazo em que podia reaver o dinheiro. E há novos navios encomendados até 2037”, salienta. As companhias de cruzeiros continuam a navegar em águas favoráveis, apostando num mercado que dá sinais claros de continuar a crescer.
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