Sofia Tenreiro: “Adoro esta velocidade com que vivemos”
A ideia de fazer este almoço com Sofia Tenreiro tornou-se num convite da Siemens Portugal para conhecer a sede da empresa. No meio da zona industrial de Alfragide rodeada de armazéns com ruas sem passeio, e muitos camiões a circular, a empresa alemã tem construído desde 1989 uma espécie de “oásis” com espaços verdes, árvores, lagos e campos de padel. Já dentro de uma sala dedicada a almoços da administração, espero pela CEO que chega cinco minutos depois, apressada, após ter-se libertado de uma reunião.
A conversa começa logo ali, à beira da janela com vista para as muitas árvores e bancos onde alguns trabalhadores fazem pausas. Sofia Tenreiro sublinha a importância de ter um espaço assim para o equilíbrio entre trabalho e bem-estar dos três mil trabalhadores da sede da empresa. Já sentados no centro de uma mesa comprida e servidos de um creme de espargos, relembro-lhe que recentemente disse que três pessoas tiveram uma grande influência na sua vida. Sofia deixa escapar um sorriso e fala de imediato do pai, da mãe e da avó materna.
Começa pelo pai, de origens humildes, nascido na região da Serra da Estrela, filho de um sapateiro. “Uma figura forte, militar, da Marinha, que me educou para não ter limites a nível profissional, quase como eu, que fui a primeira filha, fosse uma figura masculina”. “Educou-me para eu ter a carreira que quisesse, desde que trabalhasse arduamente com os valores certos, com lealdade e respeitasse as hierarquias. No fundo, os valores militares que me quis passar e que me moldaram”. Conta que isso sempre a ajudou a tomar decisões importantes na sua vida, por mais complexas que fossem.
O percurso profissional de Sofia Tenreiro, 51 anos, é feito de cargos de decisão. Trabalhou na Procter & Gamble, depois foi para o grupo Sonae, onde esteve na Optimus e no marketing do jornal Público. Mais tarde passou sete anos na Microsoft, foi diretora geral da Cisco em Portugal, diretora de operações comerciais da Galp e, antes de entrar na Siemens Portugal, esteve na Deloitte.
De regresso às influências, fala agora da avó, “uma das primeiras dentistas em Portugal”. E não disfarça a sua admiração. “Era uma lutadora, ficou viúva muito cedo, com quatro filhos pequenos, e trabalhou muito para manter o nível de vida necessário para os educar.” Recorda que para colmatar as ausências dos jantares em família, por causa do trabalho, pedia a uma babysitter para jantar e conversar, por vezes em francês, com os filhos. “Ela foi esse mulherão com um espírito muito aberto. Já velhinha continuava curiosa e interessada, navegava na internet e jogava sudoku. Só estava proibida de ver jogos do Benfica por causa do coração”.
Ainda antes de falar da mãe, a terceira grande figura na sua vida, chega à mesa o prato principal, um lombo de corvina com legumes, do menu previamente escolhido para este almoço. Sofia Tenreiro assume que tem hoje um grande cuidado com a alimentação, deixou de beber café, prefere matcha, e dá muita importância ao sono, embora na maioria das vezes antes das seis da manhã já esteja acordada. Pergunto-lhe se segue a filosofia do “Clube das 5 da manhã”, inspirado no livro best-seller com o mesmo nome sobre as supostas vantagens dos líderes empresariais acordarem mais cedo, como fazem Tim Cook e Jeff Bezos. Tenreiro sorri e partilha que o “movimento” está a deixar de ter tanta aceitação entre os CEO. Prefere dizer que sempre teve necessidade de dormir pouco, mas que hoje a saúde e a longevidade são temas que lhe interessam cada vez mais. Tanto que desde há meses, conta, faz exercício com muita regularidade, inspirada pela sua mãe. “Tem 76 anos e faz duas horas de ginástica por dia, não toma um medicamento, não tem uma dor. Quero chegar aos 130 anos assim”, conta, a sorrir, explicando que para além disso ensinou-a fintar os impossíveis. “Só a morte não tem solução, diz-me com frequência. É uma mulher super positiva em relação à vida e isso influenciou-me a ser super pragmática.”
Um ano de Siemens
O encontro com Sofia Tenreiro ocorreu exatamente uma semana depois de comemorar o seu primeiro ano à frente da Siemens Portugal. Sem reservas, diz que as expectativas “foram superadas”. Acrescenta, já com um discurso típico de CEO, que a empresa é o segredo mais bem guardado de Portugal. “Existimos há 165 anos, estamos há 120 em Portugal e todos conhecem a Siemens, sobretudo pelos eletrodomésticos, que é um negócio que já foi vendido há vários anos. Mas agora, consumidores e clientes estão a começar a descobrir-nos pelo que fazemos com dados e com a Inteligência Artificial, e está a ser uma transformação gigante”, reforça. Uma mudança que não a assusta, antes pelo contrário. “A empresa surpreendeu-me ainda mais por mostrar que a transformação que estamos a viver é mesmo muito profunda. E estamos a liderar esta revolução usando este trinómio de IA, componente tecnológico e experiência industrial”. Pergunto-lhe como vê a sociedade e as empresas a viver as alterações que a IA está a trazer. É direta na resposta: “Algumas tarefas vão ser substituídas totalmente, mas vão surgir outras novas. A IA vai ser um complemento, não um substituto”.
Perante as mudanças, pede aos trabalhadores da Siemens que sejam humanos e não robôs. “Os agentes de IA vão ser mais eficientes em certas tarefas, por isso os humanos têm de trazer a sua individualidade, o conhecimento, o sentido crítico e a socialização. Acredito que é isso que vai acontecer com a IA, quer para uso pessoal, quer para os negócios”. Contudo, avisa que teremos todos de repensar o nosso dia a dia para conseguirmos tirar “o máximo proveito desta simbiose entre humanos e tecnologia”. Explica que há os super entusiastas com a IA, os que ainda estão com um pé atrás e ainda “uma gradiente de cores no meio disso”. “ASiemens é uma organização tão grande que temos de perceber o receio de algumas pessoas em relação à tecnologia, independentemente da idade. Por isso temos criado pequenos vídeos para os colaboradores como exemplos de como usar a IA. E peço, frequentemente, que partilhem o impacto que provoca no dia a dia “.
Para Sofia Tenreiro a transformação não deverá ser difícil. Assume que adora gadgets. E nota-se. Faz-se acompanhar de dois telefones, um tablet e um computador, pousados ao seu lado na mesa de almoço, e ainda usa um smartwatch e um anel inteligente que lhe dá dados sobre o seu corpo. Apenas os headphones são analógicos, de fio. Pergunto se segue a tendência dos mais novos que estão a abandonar os headphones wireless e alguns produtos digitais. Ri-se e responde que é apenas porque já não consegue gerir tantas baterias, mas agrada-lhe assistir a esses fenómenos de regresso às origens. “Acredito que tudo é cíclico e ver como os miúdos se vestem hoje, da mesma forma como me vestia há 40 anos, é muito curioso. Tenho um filho com quase 17 anos e aprendo imenso com ele”. Ainda sobre a tecnologia, faz questão de dizer, antes que o assunto mude, que apesar de ser muito tecnológica não dispensa ler em papel, sobretudo “se forem leituras que exijam reflexão e pensamento”
Viciada na velocidade do presente
A sobremesa confirma, mais uma vez, as escolhas saudáveis de Sofia. Fruta da época laminada e nada de doces, claro. Tento testar a positividade da CEO apontando para a situação geopolítica imprevísivel e um mundo menos seguro. Assume, pragmática, que este “novo normal” tem tido impacto na empresa. “Nos últimos tempos, todas as semanas acontece qualquer coisa. Ou é uma guerra, ou a descoberta de uma doença que pode dar em pandemia. Antes existiam anos mais atribulados que outros, mas vários sem haver crises. Hoje é diferente e isso traz uma componente de incerteza para cima da mesa com a qual temos de lidar e, com isso, desenvolver uma capacidade de adaptação para antecipar os negócios para qualquer risco ou crise que surja.”
A terminar o almoço, pergunto como olha para o futuro. Prefere responder com o presente. “Adoro esta velocidade que vivemos. Nunca houve tantas oportunidades como agora. É óbvio que há muitos riscos e temos de estar muito alerta, mas olho para as oportunidades com entusiasmo. Tenho a sorte de fazer parte da geração que, provavelmente, mais períodos diferentes viveu. É incrível pensarmos como tudo evoluiu e daqui a cinco ou dez anos o mundo ainda vai ser mais incrível”. E no seu estilo incansável deixa o alerta: “é preciso sermos rápidos para aprender e aproveitar ao máximo as oportunidades”.
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