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Rui Duarte Silva, da Critical Software: “A natureza flexível do euro digital abre portas a fraudes”

Rui Duarte Silva, da Critical Software: “A natureza flexível do euro digital abre portas a fraudes”

O BCE está a preparar-se para emitir o primeiro euro digital em 2029, que será uma Moeda Digital do Banco Central (CBDC), que funcionará como uma versão eletrónica das notas e moedas físicas, e será um complemento, já que existirá em simultâneo com o dinheiro físico e não o substituirá.
Num ano que é crucial para a implementação do euro digital, o Jornal Económico falou com Rui Duarte Silva, Solution Advisor da Critical Software, empresa que prepara software crítico para a implementação do euro digital, mesmo sem ter uma parceria com o BCE. “Estamos focados em pesquisar e desenvolver competências para liderar a criação de soluções que ajudem os bancos e empresas a adotar o euro digital de forma mais rápida e segura. Para isso, firmamos uma parceria com a Cognitivo, uma empresa alemã com muita experiência na área dos pagamentos digitais”, explica.
Na opinião de Rui Duarte Silva, “o euro digital, à primeira vista, não vai causar uma mudança radical na vida das pessoas e das empresas” já que “grande parte das nossas transações financeiras já é digital. Quase todo o salário da maioria dos portugueses é gasto ou investido sem contacto direto com o dinheiro físico”.
Para as empresas, “o euro digital vai permitir fazer pequenas transações sem qualquer custo, o que pode levar pequenos comerciantes, que até agora não aceitavam cartões devido às elevadas taxas dos processadores de pagamentos, a adotar o euro digital como alternativa ao dinheiro em espécie, aumentando facilidade de pagamentos e até pode levar ao aumento da segurança pela ausência de dinheiro físico nos pontos de pagamento”. Mas, “é na infraestrutura económica que as mudanças vão ser mais significativas”, diz. “Nesse aspeto, o euro digital vai dar ao BCE uma ferramenta essencial para aplicar políticas monetárias de forma mais rápida em resposta ao contexto socioeconómico global”. Acrescenta que “é uma ferramenta essencial para fortalecer a soberania financeira da Europa“.
Duarte Silva está optimista e acredita que o euro digital vai mesmo existir. “Neste tipo de assuntos, nunca podemos fazer afirmações definitivas”, mas “num mundo em que os bancos têm cada vez mais um papel de infraestrutura, garantindo apenas o bom funcionamento do sistema financeiro, ganham destaque as empresas que oferecem os meios para movimentar dinheiro e que se conectam diretamente com os clientes dos serviços financeiros. Hoje, esse mercado é controlado por grandes companhias internacionais, na maioria americanas, que emitem cartões e soluções de pagamento digital” diz. Ora, “o euro digital, junto com a iniciativa de pagamentos europeia, será uma ferramenta-chave para trazer, pelo menos em parte, o controlo desse setor de volta ao espaço europeu”, defende.
O responsável da Critical Software lembra que o BCE está no processo de definição das especificações técnicas de implementação do euro digital, “por isso ainda não está totalmente claro que adaptações as instituições financeiras terão de fazer para se integrarem no sistema. Há várias opções de implementação possíveis, e cada uma traz desafios próprios”. Mas, independentemente da solução técnica escolhida, “há desde logo um grande obstáculo a resolver: o euro digital pode ser usado em modo offline, como um formato quase equivalente a dinheiro físico, o que vai criar problemas de reconciliação diferida e afetar diretamente a verificação e o controlo de saldos e disponibilidades”, alerta.
A segurança, em especial a cibersegurança, será a área onde as instituições financeiras mais terão de investir. O BCE estima que os bancos do euro enfrentem custos totais entre 4 e 5,8 mil milhões de euros, equivalentes a cerca de 3,4% dos seus orçamentos anuais de TI durante quatro anos. “A natureza flexível de uma moeda totalmente digital abre portas não só a ataques cibernéticos sofisticados, mas também a fraudes financeiras mais difíceis de detetar. O grande aumento de transações em tempo real cria ainda mais oportunidades para desvios de fundos, muitas vezes sem deixar rasto”, alerta. Também vai ser preciso “garantir a privacidade dos cidadãos, para que não seja fácil rastrear cada compra (sobretudo em pagamentos offline), e ao mesmo tempo equilibrar regras que permitam identificar criminosos sem colocar toda a gente sob vigilância constante”, diz.
Uma moeda centralizada no BCE cria reservas à banca já que se espera que os bancos vão perder, “pelo menos em parte”, nos depósitos. O BCE já garantiu que vai impor limites ao montante que cada pessoa pode ter em euro digital, para reduzir o impacto potencial da sua introdução. “Estima-se que essa perda possa chegar até aos 10% de todos os ativos líquidos dos bancos” diz Rui Suarte Silva, acrescentando que “essa perda afeta a gestão bancária de duas formas: os bancos podem enfrentar custos mais altos para se financiarem, ao usar fontes de dinheiro mais caras. Por outro lado, os supervisores bancários querem reforçar as exigências sobre reservas de capital e ativos líquidos de alta qualidade, o que pressiona a necessidade de financiamento da banca. Por causa disso, os bancos podem ser obrigados a restringir as suas políticas de empréstimos para manter um nível adequado de capital próprio”.

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