Valorização do ouro pode ser impulsionada por bancos centrais mas persistem fatores que pressionam metal em baixa
O ouro não atravessa o melhor dos momentos depois de ter atingido um máximo histórico a 29 de janeiro de 2026, quanto chegou aos 5.595 dólares por onça (4.909 euros à taxa de câmbio atual). A 10 de junho entrou em bear market [queda superior a 20% face a um pico] ao ritmo mais rápido desde 2008, calculado em 91 dias, de acordo com o Dow Jones. Nesse dia chegou a cotar nos 4.219 dólares por onça (3.702 euros). Este foi também o primeiro bear market da matéria-prima em quatro anos. E teve o pior desempenho trimestral [no segundo trimestre de 2026] em 13 anos.
As quebras no ouro têm sido justificadas por fatores com a possibilidade de subida das taxas de juro pelos bancos centrais, pela subida da inflação, um dólar mais forte, e pela subida nas yields das obrigações. A guerra no Médio Oriente e a subida do petróleo também não têm ajudado o metal.
Apesar deste contexto, que tem pressionado o metal em baixa, desde 1 de julho, quando cotava a 4.006 dólares por onça (3.515 euros), valorizou 2,3%, quando na segunda-feira chegou a cotar nos 4.101 dólares por onça (3.598 euros). Esta subida no preço do metal é explicada por Frank Schallenberger, do Landesbank Baden-Württemberg (LBBW), em declarações à Deutsche Welle, pelas “expectativas de cortes nas taxas de juro e um dólar norte-americano mais fraco, fortes compras por parte dos bancos centrais, bem como a elevada procura de moedas e barras [de ouro]” como fatores-chave por detrás da subida dos preços do ouro.
Frank Schallenberger destaca ainda o papel das criptomoedas. “Estão a tornar-se uma nova fonte de procura cada vez mais importante, uma vez que também estão a diversificar os seus ativos, incluindo a compra de ouro. Se isto continuar, poderá impulsionar ainda mais os preços do ouro”, referiu.
O analista de metais preciosos do Deutsche Bank Research, Michael Hsueh, citado pela Deutsche Welle, faz a distinção entre compradores inelásticos e elásticos. No seu entender os compradores estáveis e inelásticos, como os bancos centrais, “têm afastado clientes mais sensíveis aos preços”, incluindo compradores privados, como os joalheiros. Michael Hsueh considerou que esta procura constante tem sido um “fator-chave por detrás da valorização do ouro entre 2021 e 2025”.
… Mas há quem acredita que o preço do ouro possa cair
Os estrategistas de matérias-primas do ING, Warren Pattersson e Ewa Manthey, numa nota, transcrita pela CNBC, consideram que esta subida no ouro deveu-se à “procura de oportunidades após a recente fraqueza” em vez de “uma mudança significativa” no cenário geopolítico ou macroeconómico.
“Embora as tensões no Médio Oriente continuem a favorecer os metais preciosos, os mercados estão a ponderar os dados económicos mais fracos dos Estados Unidos relativamente aos riscos inflacionistas decorrentes do aumento dos custos energéticos”, acrescentaram Warren Patterson e Ewa Manthey.
Os dois analistas do ING consideram que o ouro provavelmente deve “continuar sensível” aos desenvolvimentos nos mercados de energia e às “expectativas” em relação à política monetária dos Estados Unidos.
O Bank of America acredita que o ouro possa continuar a se deteriorar depois do pior trimestre em 13 anos, que ocorreu no segundo trimestre deste ano.
“Um sinal de cruz da morte, posições líquidas longas elevadas e semelhanças com picos importantes aumentam o risco de uma correção mais longa e profunda”, disse o Bank of America numa nota divulgada a 16 de julho, e transcrita pela CNBC.
A cruz da morte acontece quando a média móvel de curto prazo de um ativo (que é geralmente calculada em 50 dias) cai abaixo da sua média móvel de longo prazo (normalmente calculada em 200 dias).
… Mas há quem aposte na subida do ouro
Mas a perspetiva de queda é também compensada por analistas que acreditam que o ouro pode ter esgotado o ciclo de quedas, e por isso está a caminho da valorização.
A presidente executiva e CEO da Hycroft Mining, empresa norte-americana de desenvolvimento de ouro e prata, Diane Garrett, citada no programa da CNBC “Squawk Box Europe” considerou que os fundamentos para as matérias-primas “continuam extremamente fortes”, particularmente para o ouro, porque “ultrapassou os títulos do Tesouro dos Estados Unidos como a principal classe de ativos e está… a tornar-se a arquitetura” do sistema financeiro”.
“As pessoas não querem possuir ativos tangíveis suportados pela dívida de outro país, e estamos a assistir a 17 meses consecutivos de compras por parte dos bancos centrais. Estes números são muito convincentes”, disse Diane Garrett.
Os analistas Michael Schaus e Matthew Finkelstein, da boutique de investigação americana Zweig-DiMenna, citados pela Morningstar, consideram que as compras por parte do Banco Central da China é um “forte indício” de que o preço do ouro “pode finalmente ter estabilizado”.
De acordo com os dados divulgados pelos dois analistas da Zweig-DiMenna a China adquiriu 5,7 mil milhões de dólares (cinco mil milhões de euros) em ouro no primeiro semestre de 2026, com a grande maioria deste valor concentrada no segundo trimestre. E em 2025, quando o metal estava a valorizar, a China comprou dois mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros), em 2023, um pouco antes da valorização do ouro, o país asiático tinha comprado 14 mil milhões de dólares (12,2 mil milhões de euros). Conclusão: A China tem aproveitado a queda no preço, depois do máximo histórico de janeiro de 2026, para comprar ouro.
Os analistas da Zweig-DiMenna acreditam que existe uma “grande probabilidade” do ouro estar num caminho de reversão das quedas no preço, com o metal a estar 10% abaixo da sua média de 200 dias.
O Morgan Stanley também acredita que o ouro pode estar a caminho da valorização. Numa nota transcrita pela Morningstar os estrategistas de matérias-primas, Amy Gower, Ben Kelson e Martijn Rats, acreditam que o metal pode atingir os 4.450 dólares por onça (3.905 euros) até ao final do ano, destacando a aceleração das compras de ouro dos bancos centrais, entre os quais o da Polónia e o da China.
O Conselho Mundial do Ouro tem também uma perspetiva relativamente positiva sobre o metal conforme demonstrado pelo seu outlook para o segundo semestre do ano.
“Aos níveis atuais [a 1 de julho o ouro estava nos 4.006 dólares por onça, ou 3.515 euros], o preço do ouro está em grande parte alinhado com o cenário global de crescimento moderado, inflação em desaceleração, mas ainda elevada, e expectativas de aperto monetário adicional – embora limitado – por parte dos bancos centrais. Nestas condições, o ouro irá provavelmente manter-se relativamente estável (±5%). Mas o cenário está preparado para uma possível subida”, referiu o Conselho Mundial do Ouro.
Destacando os fatores positivos o Conselho referiu que “catalisadores claros”, como um agravamento da economia ou um novo choque geopolítico, uma mudança para expectativas de juros mais baixos ou uma onda de compras em quedas, poderiam “reacender” o ímpeto do ouro e elevá-lo novamente para 4.500 dólares por onça (3.948 euros) ou acima.
“Se os sinais forem fortes, o ouro poderá subir ainda mais. Por outro lado, um ambiente de crescimento resiliente, aumento dos rendimentos e mercados mais calmos poderá levar a uma queda ainda maior do ouro – embora uma queda de mais de 10% em relação aos níveis atuais possa ser atenuada pela procura de preços mais baixos”, considerou o Conselho Mundial do Ouro.
“Entretanto, a procura persistente dos bancos centrais e as mudanças nas políticas em mercados-chave como a Índia são fatores adicionais que poderão influenciar subtilmente a trajetória do ouro no segundo semestre”, acrescentou o Conselho.
Um estudo de economistas do Deutsche Bank, transcrito pela Deutsche Welle, publicado em abril, destacava a subida nas compras de ouro pelos bancos centrais. Esse documento referia que os bancos centrais da China, da Rússia, da Índia e da Turquia, e os bancos centrais de mercados emergentes, estavam a aumentar as suas reservas de ouro. Devido a isso o ouro poderia chegar aos oito mil dólares por onça (7.020 euros) até 2031, quase dobrando o seu preço face à sua atual cotação.
“A forte subida do ouro, que sofreu uma pausa temporária no final de janeiro, foi impulsionada por compras expressivas de external traded funds (ETF) de ouro, bem como por aumentos significativos das reservas de ouro dos bancos centrais. Mas ambos os grupos perderam recentemente força. Aos atuais níveis de preços, não vejo fatores suficientemente fortes que permitam que os preços do ouro dupliquem nos próximos cinco anos”, referiu Frank Schallenberger, citado pelo Deutsche Welle.
“Analisámos a acumulação de ouro pelos bancos centrais dos mercados emergentes como um potencial fator determinante a longo prazo para os preços do ouro […] Assumindo que as reservas cambiais dos mercados emergentes caem de oito biliões de dólares para cinco biliões de dólares (sete biliões de euros e 4,3 biliões de euros), isto poderá corresponder a um preço nominal do ouro de oito mil dólares por onça (7.020 euros)”, disse Michael Hsueh citado pela Deutsche Welle.
O analista do DZ Bank, Thomas Kulp, referiu, também citado pela Deutsche Welle, que face aos acontecimentos dos últimos anos, as previsões não são surpreendentes. “Nos próximos 12 meses, esperamos que os preços do ouro regressem ao nível dos cinco mil dólares por onça (4.387 dólares). Os fatores fundamentais que impulsionam a procura permanecem intactos. É por isso que também mantemos uma perspetiva positiva a longo prazo para os preços do ouro”, referiu o analista do DZ Bank.
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