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Estados Unidos ‘aperta cerco’ à construção de centros de dados

Estados Unidos ‘aperta cerco’ à construção de centros de dados

Com o aumento do número de centros de dados em construção nos Estados Unidos (EUA), de 100, em 2021, para quase mil no início de 2026, de acordo com um relatório da Aterio, transcrito pelo Yahoo, tem crescido a contestação contra a construção destas infraestruturas, ligadas à inteligência artificial (IA), em vários estados. Em pelo menos 15 já foi introduzida, aprovada, ou rejeitada alguma tipo de legislação relacionada com construção de centros de dados.
Os Estados Unidos são de longe o país com mais centros de dados no mundo. Até abril de 2026 os norte-americanos, de acordo com os dados da Statistica, tinham 4.423 centros de dados face aos 555 do Reino Unido, aos 523 da Alemanha, aos 394 de França, ao 369 da China, aos 296 da Índia, aos 288 do Canadá, aos 284 da Austrália, aos 257 do Japão, e aos 252 de Itália.

O caso mais recente, de restrições à construção de centros de dados, nos EUA, foi o da Pensilvânia. A 18 de agosto o governador Josh Shapiro assinou uma ordem executiva que orientava as agência do estado “a exigir” que todas as propostas de centros de dados que solicitem licenças “cumpram” os Requisitos de Desenvolvimento Responsável de Infraestruturas (GRID), “bloqueando projetos especulativos e irresponsáveis” de centros de dados.

“Ao longo do último ano, ouvi atentamente a população da Pensilvânia – e ouvi diretamente de muitos residentes de todo o nosso estado que estão preocupados com o que o desenvolvimento de centros de dados pode significar para as nossas comunidades, o nosso ambiente e as nossas faturas de energia. A minha mensagem para os programadores de centros de dados é clara: se não conseguirem concordar com os nossos requisitos rigorosos e obter o apoio da comunidade onde pretendem construir, também não terão o apoio do estado. Estas são algumas das maiores empresas do mundo – podem dar-se ao luxo de serem boas vizinhas, seguir as regras e fazer tudo da forma correta”, disse o governador.
Mas à Pensilvânia juntam-se mais 14 estados, de acordo com a National Conference of State Legislatures (NCSL).
Nova Iorque aprovou uma moratória, de um ano, para centros de dados acima dos 20 megawatts (MW). O Delaware já introduziu uma proposta que defende licenças para centros de dados com mais de 100 MW até janeiro de 2027. A Georgia já introduziu um projeto de lei que prevê a proibição pelos governos locais de emitirem licenças para centros de dados até dezembro de 2028. Falhou em Maryland uma proposta para que nenhum centro de dados pudesse ser construído ou licenciado.
No Michigan foi apresentada uma proposta que prevê que os governos locais e a comissão de serviços públicos não possam autorizar ou aprovar novos centros de dados até abril de 2027. No Minnesota falhou a proibição de novas licenças para centros de dados até que a Comissão de Serviços Públicos apresente um relatório abrangente, pelo menos até julho de 2027.
No New Hampshire falhou um projeto de lei que incluía uma moratória de um ano para a construção de centros de dados. No Oklahoma foi rejeitada uma moratória na construção de centros de dados até novembro de 2029.
Na Carolina do Sul foi introduzida uma proposta que proíbe a aprovação local de centros de dados até que a Assembleia Legislativa adote uma estrutura de “supervisão abrangente”.
Na Dakota do Sul falhou a moratória de um ano para a construção ou expansão de centros de dados. No Vermont foi introduzida uma moratória que defende a exigência de estudo de impacto para centros de dados até 2030. Na Virgínia continua a proibição da aprovação final de novos centros de dados até que todos os pedidos de interligação sejam atendidos ou até julho de 2028. E no Wisconsin falhou a proibição da operação de centros até que 14 condições sejam satisfeitas.
A Southern Alliance for Clean Energy (SACE, ou Aliança do Sudeste para a Energia Limpa) defendeu, a 18 de agosto, uma moratória de 18 meses para novos centros de dados, de grande dimensão, no Tennessee, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Geórgia e Flórida, para que a região possa “definir proativamente os termos desta expansão, em vez de herdar os riscos dispendiosos”.
Esta aliança alerta para os custos e riscos destas infraestruturas. Um dos custos está ligado à comunidade. “Os centros de dados geram ruído e poluição atmosférica indesejados, consomem dezenas de milhões de litros de água por dia e são aprovados ao abrigo de acordos que carecem de transparência, muitas vezes antes mesmo de os residentes saberem que um projeto está a caminho”, descreveu.
A isto juntam-se custos regionais e para o estado. “As concessionárias lucram com a expansão e transferem os custos para os clientes, independentemente de a procura de energia se materializar ou não, consolidando décadas de novas centrais elétricas a combustíveis fósseis. As contas em algumas partes da região poderão aumentar até 57% até 2030, mesmo que as probabilidades de estas previsões de procura se concretizarem sejam baixas”, alertou.
E ainda existem riscos para o setor económico: “A expansão da IA ​​precisa de cerca de dois biliões de dólares (1,7 biliões de euros) por ano em novas receitas para se pagar — dinheiro que só pode vir de cortes de emprego ou de dívidas que podem desencadear uma crise financeira”, disse.
E ainda chamou a atenção para o que diz ser o “desalinhamento existencial” da IA: “As mesmas empresas estão a pedir ao Sudeste que assuma múltiplos riscos existenciais, ao mesmo tempo que afirmam aos organismos reguladores que não têm a certeza se podem controlar totalmente o que estão a construir”, explicou.
Dados da Organização das Nações Unidas, divulgados em junho, na Earth.org, apontam para que o mercado da inteligência artificial (que dependem também de centros de dados), em termos global, cresça 25 vezes na próxima década, de 189 mil milhões de dólares (162 mil milhões de euros) em 2023 para quase cinco biliões de dólares (4,2 biliões de euros) em 2033.
Procura por energia deve duplicar nos EUA
Os centros de dados são grandes consumidores de energia. O relatório da ONU diz que essa infraestrutura, em termos globais, foi responsável por cerca de 448 terawatts/hora de eletricidade em 2025, com a inteligência artificial a representar um quinto do total. Se fosse um país seria o 11.º maior consumidor de eletricidade do mundo. “Este consumo de eletricidade acarreta uma enorme pegada de carbono – 189 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) equivalente, que apenas 3,2 mil milhões de plântulas de árvores cultivadas ao longo de 10 anos seriam capazes de compensar”, referiu a mesma instituição. Em termos de área, a procura de eletricidade abrangeu uma área quase 4,5 vezes superior à da Grande Londres. Num cenário em que a quota de mercado da IA ao nível do consumo de eletricidade dos centros de dados chegue aos 40%, até 2030, o setor seria um dos maiores consumidores de eletricidade do mundo, representando 3% da eletricidade global.
Os Estados Unidos, enquanto maior detentor de centros de dados no mundo, tem tido um crescimento rápido na procura por energia. Em maio, uma nota do Goldman Sachs referia que a procura de energia para os centros de dados nos Estados Unidos deverá mais do que duplicar, passando de 31 gigawatts (GW) em 2025, para 66 GW em 2027, “impulsionada pela aceleração da expansão” da infraestrutura de IA. “Os impactos regionais irão divergir acentuadamente, com os mercados do Atlântico Médio, Médio-Continente e Noroeste a enfrentarem riscos elevados de fiabilidade, enquanto o impacto no Texas e na Geórgia poderá ser relativamente marginal graças aos planos para a geração adicional de energia. A quota dos centros de dados na procura total de energia de pico no verão dos Estados Unidos deverá subir para 8,5% em 2027, face aos 4,1% de 2025, criando um aperto significativo em todo o mercado nacional de energia”, acrescentou.
Uma nota da JLL, divulgada a 11 de agosto, referia que os mais de 66 GW de capacidade de centros de dados que estão em construção nos Estados Unidos representa uma procura de eletricidade superior à da Alemanha, um país com cerca de 84 milhões de habitantes e uma economia de aproximadamente 4,7 biliões de dólares (quatro biliões de euros). “Atualmente, 77% desta capacidade está a ser construída nos mercados emergentes. O oeste do Texas tem sido o maior beneficiário desta mudança no setor, mas o Ohio, o Louisiana, o Indiana e as Carolinas do Norte e do Sul também beneficiaram significativamente. Estes mercados praticamente não possuíam capacidade de centros de dados há 10 anos”, acrescentou.
E a água?
Os dados da Earth.org revelam que as necessidades de água, dos centros de dados, à escala global, seriam suficientes para responder às necessidades anuais de 1,3 mil milhões de pessoas, o equivalente a 9,3 biliões de litros (num cenário em que a IA atinja uma quota de 40% no consumo mundial de eletricidade). “Em termos de água, os centros de dados consumiram, em 2025, água suficiente para encher 1,8 milhões de piscinas olímpicas – o equivalente ao consumo anual de água potável de mais de 600 milhões de pessoas na África Subsariana. Em termos de área, a procura de eletricidade dos centros de dados abrangeu uma área quase 4,5 vezes superior à da Grande Londres”, salientou a mesma publicação.
Investimento de três biliões para satisfazer procura
Outra nota da JLL, transcrita pela Business Insider, considerava que o setor dos centros de dados está a entrar num dos “maiores superciclos de investimento em infraestruturas” da era moderna. “Prevê-se que o setor cresça a uma taxa anual composta de 14% até 2030, com aproximadamente 100 GW de nova capacidade a entrar em funcionamento entre 2026 e 2030, quase duplicando a capacidade global”, calculou.
A nota refere que será necessário um investimento de três biliões de dólares (2,7 biliões de euros) para satisfazer esta procura, com 1,2 biliões de dólares (um bilião de euros) direcionados para a valorização de ativos imobiliários e entre um bilião de dólares e dois biliões de dólares (860 milhões de euros e 1,7 biliões de euros) a serem destinados a despesas dos inquilinos para equipar o espaço com servidores, unidade de processamento gráfico (GPUs) e equipamentos de rede.
Custos estão a aumentar
Mas a JLL diz que os custos de construção de centros de dados “aumentaram” a uma taxa anual composta de 7% desde 2020. A rapidez na ligação à rede elétrica tornou-se o “principal critério” de seleção de localizações para os promotores.
A nota transcrita pela Business Insider adiantou que a IA representou aproximadamente um quarto das cargas de trabalho dos centros de dados em 2025 e que a inferência ultrapasse a formação como o requisito computacional dominante para a IA. “Espera-se que esta mudança impulsione as cargas de trabalho para longe dos clusters centralizados e para as implementações distribuídas e regionais, um padrão que favorece estruturas mais pequenas e repetíveis em detrimento de grandes construções únicas”, disse.
A taxa de desocupação de centros de dados mantém-se em 1% pelo terceiro ano consecutivo, “apesar da construção sem precedentes”, refletindo a “procura estrutural impulsionada pela crescente dependência” dos serviços digitais e pela adopção da inteligência artificial.
“A capacidade disponível está limitada a pequenos blocos fragmentados. A maioria dos inquilinos que hoje garantem espaço estão a assinar contratos para entregas em 2028, o que demonstra a força e a durabilidade da procura futura”, acrescentou.
Dados do Yahoo mostram que a quantidade de centros de dados nos Estados Unidos varia bastante de estado para estado. Na Georgia existem 68 centros de dados e 59 estão em construção, no Maine existem quatro, em Maryland existem 12 e 15 estão em construção, e o Michigan tem 31 e mais dois em construção.
O Minnesota tem 28 centros de dados e três em construção, o New Hampshire tem seis, em Oklahoma existem 28 e 14 em construção, a Carolina do Sul tem 18 construídos e 11 em construção, e na Dakota do Sul existem dois. A Virginia tem 334 centros de dados e 146 em construção, e o Wisconsin tem 18 e 14 estão em construção.

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