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Quando um sonho se transforma num belo labirinto

Quando um sonho se transforma num belo labirinto

Conhecida como a ilha dos ciprestes, aqui foi fundado o Mosteiro de São Jorge por volta de 982, quando o Doge Tribuno Memmo doou toda a ilha ao monge beneditino Giovanni Morosini, que drenou os pântanos para conquistar o terreno onde viria a ser construído.
Apanhar o vaporetto e seguir a passo lento e descontraído até à entrada da Basílica que leva o nome da ilha e o traço de Andrea Palladio, arquiteto renascentista italiano cujo nome está para todo o sempre ligado a Veneza, é puro deleite. A vista espraia-se até à Praça de São Marcos, mesmo de fronte. Mas não foi apenas pela vista que viemos. Embora essa perdure na memória. Viemos, sim, em busca do recato e do que se esconde no coração da Fundação Cini, que ocupa um antigo mosteiro beneditino transformado em espaço cultural.
O claustro e o cenáculo enquadram a biblioteca, uma galeria de arte, um teatro musical com vista para a lagoa e um novo espaço de exposição permanente Le stanze del vetro (“As salas de vidro”). E, para lá do bosque de ciprestes, encontra-se esse segredo que buscamos: o labirinto Borges. Mas como nasce aqui, em San Giorgio Maggiore, Veneza, um labirinto esculpido em arbustos?
História de um labirinto
Corria o ano de 1979 quando o secretário de imprensa da embaixada britânica em Buenos Aires, Randoll Coate, acordou de um sonho (pesadelo?) em que o seu amigo, o escritor argentino Jorge Luis Borges, tinha morrido.
Poderia, muito simplesmente, ter ignorado este bizarro episódio, mas não o fez. Em vez disso, escreveu uma carta a Susana Bombal, que os havia apresentado nos anos 1950, e revelou-lhe a sua ideia: inspirado pelo conto de Borges “O Jardim dos Caminhos Furtivos”, comprometeu-se a criar um labirinto em sua honra quando chegasse esse dia nefasto.
Fiel à sua palavra, após a morte do escritor, em 1986, Coate fez acontecer o labirinto-homenagem na Argentina. O sucesso foi tal que a viúva de Borges, Maria Kodama, quis levar o projeto de Coate a lugares especialmente queridos de Borges. E Veneza, cidade-labirinto por excelência, era uma das cidades de que o escritor mais gostava.
Em 2011, vinte e cinco anos depois da morte de Borges, o labirinto foi inaugurado na ilha de San Giorgio Maggiore. Um livro aberto, com o apelido do escritor recortado a verde em letras elegantes. Cada uma pede um olhar mais atento e próximo. As imagens vão ganhando forma. Um ponto de interrogação, uma bengala, um par de olhos…
O tempo deixou as suas marcas e, para devolver o esplendor a este labirinto, foi preciso começar de novo. Tudo agora está no devido lugar. Reaberto este verão, apela aos sentidos. O olfato, pois diferentes aromas pairam no ar. E, acima de tudo, a visão, à medida que o olhar vai descobrindo os contornos das letras que formam o nome do escritor. Pretexto para recordar Borges, que viveu os últimos anos da sua vida na escuridão, acabando por cegar por completo aos 55 anos.
Desfrutar de um passeio neste labirinto, entre buchos de um verde profundo, é homenagear Borges. E lê-lo também.
Fondazione Giorgio Cini | San Giorgio Maggiore, Veneza

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