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A economia está bem, mas o senhor do talho não sabe

A economia está bem, mas o senhor do talho não sabe

A economia portuguesa está bem. Sabemos porque nos dizem. Cresce, cria emprego, os salários sobem e, de vez em quando, até ultrapassamos alguém num gráfico europeu. Há números para todos os gostos e um PowerPoint capaz de transformar qualquer terça-feira numa pequena celebração nacional.
O problema é que ninguém avisou o talho. Nem a mercearia, nem a conta da luz, nem quem paga uma renda ou uma prestação ao banco.
Há na política económica uma estranha tendência para explicar às pessoas que estão melhor. É uma atividade de risco. A quem paga mais pelo mesmo saco na caixa do supermercado, pouco adianta mostrar um gráfico sobre o rendimento disponível. O gráfico, infelizmente, ainda não dá para jantar.
Os números não estão errados. A economia cresce, o emprego resiste, os salários sobem. Contudo, o erro é confundir melhoria estatística com sensação de prosperidade.
A inflação fez uma coisa particularmente eficaz: subiu os preços depressa. Segundo a DECO, o quilo de novilho custa hoje 12,75 euros, mais do dobro do que em 2022. O ritmo abranda, mas os preços não voltaram atrás. A febre passa, mas a conta fica.
É exatamente aqui que alguns políticos tropeçam. Ao cidadão que diz que a vida está cara, responde-se com o salário médio. Se insiste, aparece o PIB. Se continua pouco convencido, mostra-se-lhe Bruxelas.
Talvez a economia esteja mesmo bem e oxalá continue. Antes de festejarmos mais um décimo de crescimento, porém, convinha passar pelo talho.
O homem atrás do balcão pode não conhecer o saldo estrutural nem o PIB potencial. Mas sabe quanto custava um quilo de carne há três anos. E vê, todos os dias, a cara e a carteira de quem entra pela porta.

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